O segundo turno de 2026 coloca o Brasil diante de dois modelos radicalmente opostos de gestão pública — e a escolha define o ambiente de negócios para os próximos quatro anos. De um lado, a retomada do programa de desestatização; do outro, o fortalecimento das empresas estatais como vetores de desenvolvimento.
Para o empresariado e investidores, a diferença não é ideológica: é de fluxo de caixa, risco regulatório e oportunidades de mercado. Entender os detalhes agora evita surpresas caras depois.
O “tesouraço” prometido e o que muda na prática
O plano de Flávio Bolsonaro retoma o Programa Nacional de Desestatização, responsável por 76 privatizações entre 2019 e 2022. A venda da Eletrobras, em junho de 2022, movimentou R$ 33,7 bilhões — a maior da América Latina no setor elétrico.
Além de reativar o programa, a proposta prevê:
- Redução do número de ministérios e corte profundo de cargos comissionados
- Limite rígido para gastos operacionais da administração federal
- Desregulamentação de normas infralegais trabalhistas, tributárias e previdenciárias
- Aplicação da Lei das Estatais (2016) como critério único para nomeações em agências reguladoras
- “Revogaço regulatório” com preservação da segurança jurídica
O discurso central é a busca por um Estado “mais ágil e menos custoso”, usando a digitalização — o programa “Brasil sem Fila” — como alavanca de eficiência interna.
Por que o modelo Lula aposta no oposto
O programa de reeleição de Lula rejeita a privatização de ativos como Petrobras, Embrapa e Correios. A justificativa: essas empresas são instrumentos de soberania nacional, indução de desenvolvimento e investimento público estratégico.
Em dezembro de 2022, na transição de governo, Lula foi direto: “Vai acabar as privatizações nesse país. Já privatizaram quase tudo, mas vai acabar e vamos provar que algumas empresas públicas vão poder mostrar a sua rentabilidade.”
O plano prioriza:
- Recuperação financeira e reestruturação das estatais atuais
- Parcerias com o setor privado (não venda de controle)
- Ampliação do Repetro, regime fiscal especial para óleo, gás e hidrocarbonetos
- Alinhamento da Petrobras à transição energética e ao Acordo de Paris
- Universalização de serviços digitais via Gov.br — hoje com mais de 5 mil serviços federais
A diferença conceitual é clara: concessões e PPPs no lugar de vendas definitivas. O Estado mantém o ativo, recebe outorga e define regras de longo prazo.
O que o histórico ensina sobre cada caminho
No governo Jair Bolsonaro (2019-2022), além da Eletrobras, foram privatizadas BR Distribuidora, Liquigás, Companhia Docas do Espírito Santo e Refinaria Landulpho Alves — todas subsidiárias da Petrobras. A Secretaria de Privatizações foi criada para tocar o processo.
Ficaram na gaveta: Petrobras (matriz), Correios, Casa da Moeda e Conab.
Nos governos petistas anteriores (2003-2016), a via foi concessões de infraestrutura: aeroportos de Brasília, Guarulhos, Confins, Galeão e Viracopos (2012-2013), além de rodovias e portos. O primeiro aeroporto concedido foi São Gonçalo do Amarante (RN).
Impacto direto no seu balanço: setores sob lupa
Energia: Reativar a desestatização abre espaço para novos players em geração e transmissão. Manter a Eletrobras pública preserva a capacidade de investimento estatal, mas limita captação privada.
Óleo e gás: O Repetro ampliado beneficia toda a cadeia — mas depende de regras estáveis. A orientação da Petrobras para baixo carbono muda o perfil de risco de longo prazo.
Logística e correios: Privatizar os Correios exige modelo que atenda universalização. Concessões de portos e aeroportos seguem como alternativa testada.
Tecnologia e governo digital: Ambos os lados apostam em digitalização. O Gov.br consolidado vira plataforma de negócios para quem presta serviços ao setor público.
O que observar daqui para frente
O resultado das urnas dia 25 define o ponto de partida. Mas três variáveis independentes do vencedor merecem monitoramento contínuo:
- Composição do Congresso: privatizações exigem lei; maioria parlamentar dita o ritmo
- Nomeações nas agências reguladoras: critérios técnicos vs. indicações políticas moldam a segurança jurídica
- Execução orçamentária: cortes prometidos (“tesouraço”) ou fortalecimento de estatais dependem de caixa real, não só de discurso
Quem antecipa cenários e ajusta estratégia antes da posse ganha tempo — e, no mercado, tempo é o ativo mais escasso.
