Nova pesquisa Datafolha mostra o governo Lula com a melhor avaliação desde dezembro de 2024, derrubando a rejeição líquida para apenas três pontos negativos. O empate técnico com Flávio Bolsonaro no segundo turno sugere recuperação, mas um detalhe histórico impede comemoração antecipada. A direita tem aparecido nas urnas com mais votos do que nas pesquisas desde 2018.
O que os números mostram de concreto
O saldo entre “ruim/péssimo” e “ótimo/bom” caiu para -3 pontos, o patamar mais favorável em quase dois anos. Para comparação, Jair Bolsonaro registrava -1 ponto no mesmo período da campanha de 2022. A diferença parece pequena, mas sinaliza que a avaliação ruim — pedra no sapato da reeleição — finalmente cedeu depois de estagnar desde setembro.
No confronto direto, a distância para Flávio Bolsonaro encolheu 2,3 pontos percentuais em duas semanas. O movimento não é uniforme: concentra-se em fatias específicas do eleitorado.
- Jovens (16 a 24 anos): redução de 12,6 pontos na vantagem adversária;
- Nordeste: queda de 8,6 pontos;
- Ensino médio: recuo de 8,2 pontos;
- Homens: diminuição de 5,8 pontos;
- Interior: menos 5 pontos;
- Renda até 2 salários mínimos: queda de 4,2 pontos.
Todas as variações beiram a margem de erro, mas formam um padrão consistente. Não é um salto, é uma “tendenciazinha” — termo técnico para movimento incipiente, porém disseminado.
Por que a direita ainda sorri
O otimismo petista esbarra num fantasma estatístico. Em 2018 e 2022, o eleitorado de direita compareceu às urnas em volume superior ao capturado pelos institutos na véspera. Não é lei da física, mas virou regra prática. Enquanto a pesquisa aponta empate, o voto real pode reservar surpresa desfavorável ao Planalto.
Além disso, a melhora na avaliação é muito recente. Até meados de setembro, o governo patinava. A reversão coincide exatamente com a intensificação da campanha de rua e digital, não com entregas concretas de políticas públicas. Isso torna o ganho volátil.
A máquina petista acordou (e copiou o adversário)
O PT redescobriu a militância que dizia não ter. O “Exército de Lula”, comandado pelo deputado André Janones (Rede-MG), levou para as redes o mesmo “vale-tudo” bolsonarista de 2022: cortes de vídeo, narrativas de WhatsApp, mobilização agressiva. Funcionou.
Massas de jovens lulistas e antibolsonaristas ocuparam as ruas. A cúpula partidária, envelhecida e desconectada do centro e do mundo digital, foi atropelada pela base. O choque de realidade forçou o governo a adotar a linguagem do “povo miúdo” — preços, dívidas, trabalho — que ignorava desde a posse.
O erro de cálculo que quase custou a eleição
A elite petista achava que Flávio Bolsonaro seria “barbada”. Subestimou a estrutura de um “partido de massas” de direita, esqueceu a política das ruas e tratou o centro com desdém. Conselheiros medíocres reforçaram a bolha. O révei só veio na reta final, quando a derrota no primeiro turno expôs a fragilidade.
O que observar daqui para frente
Três variáveis ditam o próximo capítulo: a manutenção da mobilização de rua nas duas semanas finais, a capacidade de converter melhora de avaliação em voto decidido (não apenas “menos rejeição”) e o comportamento do eleitorado de centro — ainda refratário aos extremos. Se a “tendenciazinha” virar tendência de fato, o segundo turno entra em território genuinamente imprevisível. Caso contrário, a vantagem histórica da direita nas urnas prevalece.
