Economia

Embraer bate recorde: carteira de pedidos salta para US$ 35,7 bi

Jato comercial Embraer E195-E2 em voo, símbolo da carteira recorde de US$ 35,7 bi
Embraer atinge carteira de pedidos histórica de US$ 35,7 bilhões no 3º trimestre.

A carteira de pedidos consolidada da Embraer fechou o terceiro trimestre em US$ 35,7 bilhões (R$ 179,8 bilhões), novo pico histórico que supera em 14% o mesmo período do ano anterior. O número ultrapassa os US$ 34,5 bilhões registrados no trimestre imediatamente anterior e expõe uma demanda aquecida em todas as frentes de atuação da fabricante.

Mas o volume total esconde dinâmicas bem diferentes entre os segmentos. Enquanto a aviação comercial avança com solidez, a defesa dispara e a executiva renova seu próprio teto. Entender de onde vem cada fatia explica para onde a empresa olha nos próximos ciclos.

Aviação comercial: base estável com reforço de peso

O segmento responde por US$ 15,8 bilhões (R$ 79,6 bilhões), alta de 4% na comparação anual. O crescimento vem de encomendas firmes — compromissos formais de compra — fechadas com quatro clientes de perfil distinto:

  • Grupo Abra (controlador da Gol e da Avianca);
  • Binter (companhia aérea das Ilhas Canárias);
  • Luxair (bandeira de Luxemburgo);
  • ANA Holdings (maior grupo aéreo do Japão).

A diversificação geográfica e de modelo de negócio — low-cost, regional e legacy — dilui riscos de concentração e mantém a linha de produção dos E-Jets E2 com visibilidade de longo prazo.

Aviação executiva: novo recorde histórico

A carteira de jatos executivos atingiu US$ 8,2 bilhões (R$ 41,3 bilhões), expansão de 12% ano a ano. É o maior valor já registrado para a divisão, sinal de que a troca de frota por modelos mais eficientes (Phenom 300E, Praetor 500/600) segue forte mesmo em cenário de juros elevados nas principais economias.

O desempenho reforça a tese de que o ciclo de renovação de frota corporativa tem fôlego próprio, descolado em parte dos ciclos macroeconômicos de curto prazo.

Defesa explode 56% com KC-390 na América do Sul

O destaque percentual fica com defesa e segurança: US$ 6,1 bilhões (R$ 30,7 bilhões), salto de 56% na base anual. O motor foi o contrato firme de duas aeronaves KC-390 Millennium para a Força Aérea da Colômbia.

A venda amplia a pegada do cargueiro tático na América Latina e eleva o portfólio firme do programa para 43 unidades. Somam-se 25 pedidos firmes do A-29 Super Tucano. O resultado prático aparece no book-to-bill (vendas sobre receita) de 2,9 vezes nos últimos 12 meses — cada real faturado equivale a quase três reais em novas encomendas.

O que o book-to-bill de 2,9x sinaliza para o caixa

Esse indicador acima de 1,0 costuma antecipar crescimento de receita futura. No caso da defesa, a magnitude (2,9x) sugere que a fábrica de Gavião Peixoto (SP) terá ocupação garantida por anos, com potencial de ganhos de escala na linha do KC-390.

Para o investidor, a leitura é de visibilidade: a combinação de carteira recorde com book-to-bill elevado reduz a incerteza sobre a geração de caixa operacional no médio prazo, desde que a cadeia de suprimentos acompanhe o ritmo de entregas.

Pontos de atenção daqui para frente

A manutenção desse patamar depende de três variáveis. Primeira: a capacidade de converter a carteira em entregas sem gargalos logísticos ou de motores. Segunda: a entrada de novos pedidos de defesa fora da América Latina — campanhas na Europa e Ásia estão em estágio avançado. Terceira: a saúde financeira das aéreas clientes na aviação comercial, que ainda carregam balanços alavancados pós-pandemia.

O próximo relatório trimestral dirá se a Embraer consegue transformar o recorde de papel em recorde de faturamento efetivo.