A Meta derreteu 7% em um único pregão após admitir que precisará de “centenas de bilhões de dólares” para sustentar sua aposta em inteligência artificial. O tombo arrancou US$ 124 bilhões do valor de mercado da empresa e arrastou o Nasdaq 100 para uma queda de 2,9%, enquanto investidores corriam para a segurança dos títulos do Tesouro americano.
O rendimento do título de dez anos recuou 0,16 ponto percentual, para pouco menos de 5%, no melhor dia para o papel desde meados de 2024. Não foi um dado macroeconômico que moveu o mercado — foi o medo de que a farra da IA financiada por dívida esteja chegando ao limite.
O gatilho: gastos sem teto à vista
No balanço divulgado na quarta-feira (21), a companhia de Mark Zuckerberg avisou que o ambiente para captação de recursos está “cada vez mais desafiador”. A frase soou como um alerta: concorrentes como Alphabet, Anthropic e OpenAI também preparam emissões massivas de dívida ou IPOs gigantescos.
O CDS de cinco anos da Meta — seguro contra calote — saltou quase dez pontos-base, para 116 pontos-base, o maior patamar desde o início das negociações. Traders aumentaram posições de proteção contra calote em todo o setor de tecnologia.
Efeito dominó nos semicondutores
Quem fornece os chips para essa infraestrutura sentiu o baque imediato. O índice de semicondutores da Filadélfia desabou quase 7%, apagando ganhos acumulados ao longo do ano. A venda foi concentrada em papéis que mais subiram na onda de otimismo com IA.
- Nasdaq 100: -2,9%
- S&P 500: -1,2%
- Semiconductores (SOX): -6,8%
- Treasury 10y yield: -16 bps (para ~4,99%)
- Meta CDS 5y: 116 bps (recorde histórico)
Até a SpaceX, de Elon Musk, caiu 9,1% após revelar que a receita mais que dobrou no terceiro trimestre — prova de que nem resultados fortes blindam ativos de risco quando o apetite por risco evapora.
Europa queima no próprio fogo
Enquanto Nova York comprava Treasuries, Paris via seus títulos de dez anos superarem 5% pela primeira vez desde 2002. O spread contra o Bund alemão atingiu 1,7 ponto percentual, nível inédito desde a crise da dívida soberana de 2011.
Itália (1,2 pp) e Bélgica (1,1 pp) também viram prêmios de risco explodirem. Operadores alavancados foram forçados a desmontar posições, e o BCE ainda não sinalizou intervenção. Jens Eisenschmidt, do Morgan Stanley, admite que uma pausa no aperto quantitativo aliviaria a pressão, mas alerta: o movimento reflete “preocupações claramente vinculadas a um único país”.
Petróleo e Oriente Médio completam a tempestade
O Brent subiu 4%, para US$ 113,17, após houthis intensificarem ataques à Arábia Saudita. Os EUA ordenaram a saída de parte do pessoal diplomático do reino. Van Luu, da Russell Investments, resume: “O risco de escalada no Oriente Médio voltou ao centro das preocupações”.
O Stoxx 600 europeu fechou em baixa de 1,1%, com investidores trocando dívida periférica por Treasuries. A aversão ao risco tornou-se global e simultânea.
O que observar daqui para frente
O secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, disse em reunião privada que não vê “problema sistêmico” no boom de IA. Mas o mercado precifica ceticismo: a combinação de emissões recordes, CDS em alta e spreads soberanos europeus tensionados sugere que o limite de alavancagem do setor tecnológico está sendo testado em tempo real. Fique atento às próximas emissões de dívida big tech e a qualquer sinal do BCE sobre reinvestimento de títulos vencidos — isso pode ditar o ritmo dos próximos dias.
