A Meta despencou 7% nesta quinta-feira (22) depois de avisar que precisará captar “centenas de bilhões de dólares” para bancar sua infraestrutura de inteligência artificial. O tombo apagou cerca de US$ 124 bilhões em valor de mercado e arrastou o Nasdaq 100 para uma queda de 2,9%.
O movimento acendeu um alerta: até que ponto o boom de IA sustentado por dívida é sustentável? A resposta começa a aparecer nos títulos do Tesouro americano.
O refúgio imediato: Treasuries disparam
Enquanto as ações afundavam, o rendimento dos Treasuries de 10 anos caiu 0,16 ponto percentual, para pouco menos de 5%. Foi o melhor dia para o papel desde meados de 2024. Jon Hill, do Barclays, foi direto: “A alta dos títulos hoje não tem a ver com dados econômicos. Tem tudo a ver com possíveis fissuras na aposta em inteligência artificial.”
Investidores correram para proteção. O spread dos CDS (credit default swaps) de cinco anos da Meta saltou quase dez pontos-base, para 116 pontos-base — o maior nível desde o início das negociações.
O contágio nos chips e nas Big Techs
A venda não poupou os fornecedores da revolução. O índice de semicondutores da Filadélfia tombou quase 7%. Operadores relataram desmonte agressivo de posições em papéis que haviam acumulado ganhos expressivos no ano.
Outros nomes de peso sentiram o baque:
- SpaceX: -9,1%, apagando ganhos da semana
- Tesla: -3,1%
- Alphabet, Anthropic, OpenAI: todas com planos massivos de captação no radar
A Meta advertiu para um “ambiente cada vez mais desafiador para a captação de recursos”. A concorrência por funding nunca foi tão acirrada.
A tempestade perfeita: Europa e petróleo
O pânico não ficou restrito a Nova York. O rendimento dos títulos franceses de 10 anos superou 5,08% — patamar inédito desde 2002. O spread sobre os Bunds alemães atingiu 1,7 ponto percentual, o maior desde a crise da dívida soberana de 2011.
Itália (1,2 pp) e Bélgica (1,1 pp) também viram prêmios de risco explodirem. Jens Eisenschmidt, ex-BCE e hoje no Morgan Stanley, sugeriu que uma pausa no aperto quantitativo do banco central europeu poderia aliviar a pressão. Mas ressaltou: a disparada francesa enquanto alemães caem é “típica de aversão a risco” e reflete preocupações “claramente vinculadas a um único país”.
No petróleo, o Brent subiu 4% para US$ 113,17 o barril após ataques houthis à Arábia Saudita. Os EUA ordenaram retirada de parte de seu pessoal do reino. Van Luu, da Russell Investments, resumiu: “O risco de escalada no Oriente Médio voltou ao centro das preocupações.”
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar o ritmo nas próximas semanas: o calendário de emissões de dívida das big techs (especialmente Alphabet e Meta), a evolução dos spreads de CDS como termômetro de confiança, e qualquer sinal do BCE sobre reinvestimento de títulos vencidos. Se a captação ficar mais cara, o custo de capital da IA sobe — e a conta chega no valuation de todo o setor.
