A Anvisa aprovou o Emrelis (telisotuzumabe vedotina) para câncer de pulmão de células não pequenas avançado, com taxa de resposta objetiva de 34,5% em pacientes com alta superexpressão de c-Met. O aval chega num momento em que opções terapêuticas para doença metastática pós-quimioterapia e imunoterapia são escassas.
O medicamento também mostrou 29,2% de resposta na população total avaliada. Mas o número que chama atenção dos analistas é outro: a durabilidade das respostas observadas no estudo clínico. Entenda por que isso pode redesenhar a linha de cuidado no Brasil.
Como o Emrelis funciona — e por que a seletividade importa
Diferente da quimioterapia tradicional, o fármaco é um conjugado anticorpo-fármaco (ADC). Ele reconhece e se liga à proteína c-Met na superfície das células tumorais, internaliza o complexo e libera a monometilauristatina E diretamente no interior da célula, induzindo morte celular programada.
Essa precisão reduz danos ao tecido saudável — um fator crítico para pacientes já debilitados por linhas prévias de tratamento. A aprovação restringe o uso a tumores não escamosos, localmente avançados ou metastáticos, com receptor EGFR tipo selvagem e alta superexpressão de c-Met confirmada por teste diagnóstico.
O tamanho do mercado endereçável no Brasil
O câncer de pulmão responde pela maior mortalidade oncológica mundial. No subtipo de células não pequenas (CPCNP), cerca de 70% são não escamosos — o alvo do Emrelis. Desses, estima-se que 3% a 5% apresentem alta superexpressão de c-Met sem mutação EGFR.
Em números absolutos, isso representa algumas centenas de novos pacientes elegíveis por ano no sistema público e privado combinados. Pequeno em volume, mas alto em valor: terapias-alvo nessa faixa costumam ter custo por ciclo superior a R$ 50 mil.
- Incidência anual de CPCNP no Brasil: ~30 mil casos
- Subtipo não escamoso: ~21 mil (70%)
- Elegíveis a c-Met alto / EGFR selvagem: ~630 a 1.050 pacientes/ano
Poherdy: a segunda aprovação do dia e o movimento no HER2+
No mesmo ato, a Anvisa registrou o Poherdy (pertuzumabe) para câncer de mama HER2-positivo — tanto metastático quanto inicial. No cenário metastático, a indicação é em combinação com trastuzumabe e docetaxel para pacientes sem tratamento prévio anti-HER2 ou quimioterapia.
Já no estádio inicial, o uso combina trastuzumabe e quimioterapia nos esquemas neoadjuvante (antes da cirurgia) e adjuvante (após cirurgia) para tumores com elevado risco de recorrência. A duplicidade de indicações amplia o TAM (Total Addressable Market) do ativo significativamente.
O que observar daqui pra frente
A incorporação no SUS passa pela Conitec e pela avaliação de custo-efetividade — o gatilho real para volume. No suplementar, a ANS costuma seguir o rol, mas operadoras antecipam cobertura para terapias com evidência robusta em segunda linha. Acompanhe a publicação do parecer técnico da Conitec e a negociação de preço máximo (CMED) nas próximas semanas; ambos ditam a velocidade de adoção e o impacto no faturamento das farmacêuticas envolvidas.
