Um dia após o governo editar a medida provisória que extinguiu as apostas online no país, o senador Flávio Bolsonaro (PL) ligou para o presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista — o Bap. A conversa, revelada por fontes próximas às duas partes, expõe uma articulação que mistura campanha eleitoral, interesses bilionários do futebol e uma investigação da Polícia Federal.
O senador não prometeu revogar o veto. Disse apenas que, se eleito, “encontraria uma solução” para clubes e casas de apostas. A ambiguidade é deliberada.
O que está em jogo para os cofres rubro-negros
O Flamengo foi o clube que mais se expôs contra a proibição. Entrou como parte no processo no STF que questiona a MP — relatado pelo ministro Luiz Fux — e estampou a frase “proibir não é proteger” no espaço nobre da camisa, onde antes estava a publicidade de uma bet.
Não é apenas ativismo institucional. Os números explicam a urgência:
- R$ 2,1 bilhões: receita estimada dos 20 clubes da Série A com patrocínios de apostas em 2024
- 47%: fatia do Flamengo nesse bolo, segundo levantamentos de mercado
- R$ 5 bilhões: volume movimentado pelo advogado Willer Tomaz, maior apostador do Brasil em 2025
Tomaz é sócio da Best Bet, casa de apostas que a PF investiga se tem Flávio Bolsonaro como sócio indireto. O senador nega.
O cálculo eleitoral por trás do aceno
A ligação aconteceu às vésperas do primeiro turno, quando Flávio aparecia em ascensão nas pesquisas contra Lula. A estratégia petista apostava na impopularidade das bets: Datafolha de 1º de outubro mostrou 78% de apoio ao fim das apostas, associadas a endividamento e vício.
Flávio, porém, vinha construindo uma narrativa distinta. Votou contra a regulamentação em 2023, mas passou a defender a separação entre cassinos online e apostas esportivas. Disse que a MP “agrediu a segurança jurídica, agrediu os clubes, diversas empresas do setor”.
No mesmo dia da ligação com Bap, publicou enquete no X sugerindo que flamenguistas votavam mais nele do que no petista. Dias depois, incentivou publicamente o presidente do Santos, Marcelo Teixeira, a votar em sua candidatura.
O silêncio das partes e o vácuo no Congresso
Procurada repetidamente, a campanha de Flávio não respondeu. O Flamengo, por meio da assessoria, negou apoio formal a qualquer candidato. Bap não atendeu aos contatos.
Enquanto isso, a MP aguarda tramitação no Congresso. Parlamentares do centrão já sinalizam que podem reverter a proibição após as eleições — um cenário que interessa diretamente a clubes, veículos de comunicação e às próprias bets.
O presidente da CBF, Samir Xaud, não se posicionou publicamente, mas atuou nos bastidores para esvaziar a reunião convocada pelo governo federal dias após o veto. Deu liberdade aos clubes, mas deixou claro que não compareceria.
O rebote que ninguém previu
Lula, derrotado no primeiro turno com 45,16% contra 47,03% de Flávio, passou a evitar o tema. Assessores avaliam que o efeito positivo da medida foi menor que o esperado: a proibição gerou revolta organizada de setores com alta capacidade de pressão — clubes, mídia esportiva e milhões de usuários.
O placar final das urnas ainda não está definido. Mas o tabuleiro já mostra as peças: de um lado, a promessa vaga de “solução”; do outro, uma investigação criminal e uma conta milionária para pagar.
O que observar nas próximas semanas
Três sinais dirão para onde o vento sopra:
- Se Flávio assumir compromisso explícito com a volta das bets esportivas em eventual segundo turno
- O andamento do inquérito da PF sobre a Best Bet — qualquer indiciamento muda drasticamente o cenário
- A articulação no Congresso para derrubar ou modificar a MP na primeira semana de novembro
Para dirigentes, investidores e profissionais do setor, a leitura é uma só: a proibição pode ter sido um gesto de campanha, mas a negociação real começa agora. E quem tem assento à mesa já sabe quais são as fichas.
