Economia

O segredo do leilão de gás que reuniu Vale, Braskem e Samarco…

Leilão de gás da PPSA reúne Vale, Braskem e Samarco em 2027
PPSA vende 1,1 milhão de m³/dia de gás para 23 indústrias em leilão setorial inédito.

A PPSA (Pré-Sal Petróleo) fechou nesta quinta-feira (22) um leilão inédito que colocou 1,1 milhão de metros cúbicos diários de gás natural da União nas mãos de 23 indústrias de peso. O volume, contratado para entrega entre março e dezembro de 2027, foi todo absorvido em cinco rodadas setoriais, cancelando a etapa final de disputa livre. O movimento sinaliza uma mudança estrutural na forma como as grandes consumidoras acessam a molécula no Brasil.

Quem levou o quê: a divisão do bolo

O certame segmentou a oferta em cinco blocos industriais, garantindo previsibilidade para setores que dependem do insumo para fornos, reatores e usinas. Confira a distribuição dos volumes diários:

  • Químico e Petroquímico: 350 mil m³/dia (Braskem, Evonik, Ingredion, Peróxidos do Brasil, Rhodia).
  • Siderúrgico, Metalúrgico e Mineração: 320 mil m³/dia (Vale, CSN, Gerdau, Samarco, Ternium).
  • Cerâmico: 200 mil m³/dia (Biancogres, Formigres, Villagres, Delta, Dexco, Incepa, Mohawk, Ruy R. Rocha).
  • Fertilizantes Nitrogenados: 130 mil m³/dia (Multitecnica, Yara Brasil).
  • Vidraceiro: 100 mil m³/dia (AGC, Cebrace, Wheaton).

O preço da molécula e a logística oculta

O valor final não é fixo. A fórmula atrela 115% da média do Henry Hub (referência dos EUA) ao câmbio do mês anterior, somado ao prêmio ofertado no leilão. O lance mínimo partiu de US$ 1,80/MMBtu, com passos de US$ 0,02. Mas há um detalhe crítico: a entrega ocorre na saída da Unidade de Tratamento de Gás de Itaboraí, no Complexo de Energias Boaventura (antigo Comperj), no Rio de Janeiro.

A partir dali, o transporte é por conta do comprador. Isso exige a contratação de uma comercializadora habilitada na ANP e acesso à malha de gasodutos — um custo logístico que separa quem apenas arremata o volume de quem efetivamente o viabiliza na planta.

Por que a União vendeu tudo na primeira chamada

Não sobraram lotes para a rodada “livre” prevista para a tarde. A demanda setorial superou a oferta segmentada, o que, na visão do mercado, reflete o apetite reprimido por alternativas ao suprimento tradicional. Luis Fernando Paroli, presidente da PPSA, confirmou que a empresa já projeta novo leilão para 2025: a meta é ofertar 1,8 milhão de m³/dia, um aumento de 63% sobre o volume atual.

A arrecadação estimada para os dez meses de contrato gira em torno de R$ 376 milhões. O edital passou por consulta pública que recebeu 320 contribuições de 22 agentes, resultando em regras de habilitação mais flexíveis — fator que pode ter facilitado a entrada de 36 empresas habilitadas, das quais 23 saíram vitoriosas.

O que observar daqui para frente

O modelo de venda direta da União ao consumidor final, sem intermediação obrigatória da Petrobras na comercialização, testa a liquidez do mercado livre de gás. Para o executivo que negocia contratos de longo prazo, três variáveis merecem monitoramento constante: a trajetória do Henry Hub e do dólar (indexadores do preço), a capacidade de escoamento a partir de Itaboraí e o calendário do próximo leilão, que promete volume quase dobrado. Quem dominar a logística de transporte e a gestão do risco de preço nessa nova dinâmica larga na frente na competitividade industrial.