Economia

O que Flávio Bolsonaro prometeu ao Flamengo sobre as bets — e por que o mercado não dorme

Flávio Bolsonaro e presidente do Flamengo Bap em telefonema sobre regulamentação de apostas esportivas
Senador Flávio Bolsonaro negocia com Bap, presidente do Flamengo, futuro das bets no futebol brasileiro

Um telefonema entre o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista — o Bap — expôs a tensão entre poder político e dinheiro do futebol. Horas depois de Lula proibir as apostas online por medida provisória, o candidato à presidência garantiu ao cartola: se eleito, haverá saída para clubes e casas de apostas. Mas evitou prometer a volta pura e simples.

A ligação aconteceu às vésperas do primeiro turno, quando pesquisas mostravam Flávio à frente de Lula. O Datafolha de 1º de outubro revelava que 78% dos brasileiros apoiavam o fim das bets. O governo esperava colher votos com a canetada. O tiro saiu pela culatra: setores prejudicados — clubes, veículos de mídia, apostadores — reagiram com força.

O que foi dito (e o que ficou no ar)

Segundo três fontes próximas à campanha e ao futebol, Flávio tranquilizou Bap sem assinar cheque em branco. Disse que “encontrará uma solução”, mas não se comprometeu a revogar a MP. Na prática, manteve a porta aberta para negociar depois das urnas.

O senador tem histórico ambíguo. Votou contra a regulamentação do setor em 2023. Durante a campanha, colou Lula ao “jogo do tigrinho” — cassino online de alta viciação. Ao mesmo tempo, defende separar apostas esportivas de cassinos virtuais, argumentando que a proibição abrupta “agrediu a segurança jurídica, agrediu os clubes, diversas empresas”.

O dinheiro por trás da camisa

O Flamengo não é espectador. O clube entrou como parte na ação no STF que questiona a MP — relatoria do ministro Luiz Fux — e estampou “Proibir não é proteger” no espaço nobre da camisa, onde antes iam logos de bets. A CBF não se posicionou publicamente, mas seu presidente, Samir Xaud, articulou o boicote à reunião convocada pelo governo dias após o veto.

Quatro dirigentes ouvidos pela reportagem confirmam: a simpatia política da cartolagem pesa a favor de Flávio. A expectativa é de decisões favoráveis aos cofres dos times.

  • 2016-2018: Temer libera apostas online
  • 2019-2022: Governo Bolsonaro — operação sem regras
  • 2023: Lula regulamenta, impõe tributos e fiscalização
  • Set/2026: MP de Lula proíbe tudo

O elefante na sala: investigação da PF

Paralelo ao aceno às bets, a Polícia Federal apura se Flávio é sócio indireto da Best Bet, em parceria com o advogado Willer Tomaz. Tomaz, sozinho, movimentou R$ 5 bilhões em apostas em 2025 — o maior apostador do país naquele ano. A campanha não respondeu aos questionamentos da Folha enviados em 8, 20 e 21 de outubro. O Flamengo e Bap também silenciaram.

No primeiro turno, Flávio obteve 47,03% contra 45,16% de Lula. Dias após o veto, o senador publicou enquete no X sugerindo que flamenguistas o preferiam — no mesmo dia da ligação com Bap. Depois, incentivou publicamente o presidente do Santos, Marcelo Teixeira, a votar nele.

O que o Congresso fará — e o que Lula calou

A MP aguarda tramitação. Parlamentares do centrão já sinalizam: a tendência é liberar as bets após as eleições. Lula, derrotado na primeira rodada, evitou o tema. Seus assessores avaliam que o efeito eleitoral positivo foi menor que o esperado. O apoio popular ao fim das apostas não impediu o rebote de setores organizados e de usuários inconformados.

O que observar daqui para frente

Três variáveis definem o próximo capítulo: (1) o desfecho do inquérito da PF sobre a Best Bet; (2) a articulação do centrão no Congresso para flexibilizar a MP; (3) a postura do STF na ação do Flamengo. Se Flávio vencer, a pressão dos clubes por uma “solução” será imediata. Se Lula virar, a tendência é endurecer a fiscalização — mas com negociação. Em ambos os cenários, o dinheiro das apostas não volta para a caixa-preta: ele muda de dono, de regra e de discurso.