Um grupo de 380 líderes empresariais e da sociedade civil entregará ao governo uma carta com metas agressivas: Selic a 7,5% e inflação a 3% em três anos. O documento, coordenado pelo economista Roberto Giannetti da Fonseca, condiciona esse cenário a um ajuste fiscal capaz de gerar superávit primário de 1% do PIB já em 2025. A pergunta que fica é se a política conseguirá sustentar a matemática necessária para chegar lá.
O “Parlatório” e o peso dos signatários
Batizado de Grupo Parlatório, o coletivo reúne nomes de peso como Isaac Sidney (Febraban), Jean Paul Prates (ex-Petrobras), Roberto Klabin, Ilona Szabó e Viviane Senna. A carta será protocolada com o vice-presidente Geraldo Alckmin nesta quinta-feira (22), enquanto a equipe de Flávio Bolsonaro ainda não agendou reunião para receber o texto.
A estratégia do grupo vai além da economia: propõe mudanças na indicação de ministros do STF, fim da reeleição para executivos e aceleração da reforma tributária. É um pacote “tudo ou nada” para destravar o crescimento.
A equação fiscal por trás da meta de juros
O coração da proposta é a trajetória da dívida pública. Hoje, a relação dívida bruta/PIB está em 82,9% (dados do Banco Central). A meta do grupo é derrubar esse índice para abaixo de 70% até dezembro de 2030.
Para atingir o superávit primário de 1% do PIB no próximo ano, a carta elenca três pilares técnicos:
- Atualização da Lei de Responsabilidade Fiscal;
- Revisão da indexação de despesas obrigatórias e vinculações ao salário mínimo;
- Corte de supersalários no serviço público.
Na avaliação dos signatários, a sustentabilidade fiscal reduziria o prêmio de risco, abrindo espaço para a queda estrutural dos juros.
Projeções de crescimento e o alvo de investimento
Se o ajuste funcionar, o grupo projeta um cenário otimista para o quadriênio 2027-2030:
- Crescimento real médio igual ou superior a 3% ao ano;
- Taxa de investimento acima de 20% do PIB;
- Carga tributária estabilizada em torno de 34% do PIB, sem aumento na calibragem do IBS e CBS.
O texto argumenta que o resultado seria um ambiente “mais atrativo e seguro para investimentos produtivos e consumo doméstico”. A reforma administrativa sugerida prevê redução de ministérios, autarquias e estatais, além de foco em desempenho e digitalização.
Judiciário, política e os primeiros 100 dias
O documento não para na economia. Propõe uma reforma política a ser elaborada em 90 dias pelo Conselho da República e enviada ao Congresso como PEC no primeiro semestre. O fim da reeleição é a bandeira mais visível.
No Judiciário, pede regras mais rigorosas para indicação e aprovação de ministros do STF. Já na agenda de produtividade, cobra abertura gradual da economia e resolução do contencioso comercial com os EUA já em janeiro, mantendo postura firme na defesa comercial com a China.
Meio ambiente e segurança: as condicionantes sociais
Na pauta verde, as metas incluem neutralizar emissões do agronegócio até 2042, com restauração de 15 milhões de hectares, além da criação de mercado regulado de carbono e veto à redução de áreas protegidas.
Para a segurança, a receita é integração de inteligência: PF, Receita Federal e Coaf unidos contra o poder financeiro do crime organizado. O pacote prevê ainda câmeras corporais nas forças federais e manutenção da restrição ao porte de armas como regra geral.
O que observar daqui para frente
A viabilidade do plano depende de uma variável que não está no papel: a capacidade de articulação política para aprovar as mudanças na LRF e na indexação de despesas no Congresso atual. O superávit de 1% do PIB em 2025 é o termômetro imediato — se não vier, a projeção de Selic a 7,5% em 2027 perde o chão. Investidores devem monitorar a tramitação da reforma tributária (regulamentação do IBS/CBS) e eventuais sinais de flexibilização do arcabouço fiscal nas próximas semanas.
