Tecnologia

O poder invisível: como a Starlink virou peça-chave nas eleições brasileiras e ninguém percebeu

Antena Starlink em área remota da Amazônia conectada à urna eletrônica nas eleições brasileiras
Um dos 1.113 terminais Starlink que levarão internet via satélite aos locais de votação mais isolados do Brasil.

No próximo domingo, 1.113 terminais de satélite vão ditar o ritmo da apuração nos rincões do Brasil. A infraestrutura pertence a um único homem — e ele não está na cédula.

A contratação custou R$ 8 milhões aos cofres públicos. Mas o contrato esconde uma fragilidade que o TCU expôs em agosto: não há elo direto entre a Justiça Eleitoral e a dona dos satélites.

O fio que liga a Amazônia a Elon Musk

O TSE escolheu a Hughes como fornecedora. A empresa opera a rede, mas a constelação é da Starlink. No edital, zero menção a cláusulas de continuidade impostas diretamente a Musk.

Se o sinal cair no meio da apuração no Alto Solimões, o TSE aciona a Hughes. A Hughes aciona a Starlink. E a Starlink responde… quando quiser.

O que o Acórdão 2195/2026 revelou

O Tribunal de Contas da União dissecou a licitação em 19 de agosto. Encontrou duas decisões críticas do TSE:

  • Responsabilidade em cascata: só a Hughes responde contratualmente. A Starlink, dona da infraestrutura, não assina nada.
  • Fim da redundância: tecnologias alternativas (como satélites geoestacionários) foram descartadas para “não encarecer o projeto”.

O TCU viu falhas na pesquisa de preços e nas exigências. Mesmo assim, manteve a licitação. Limitou-se a comunicar as irregularidades para “evitar repetição”.

O precedente ucraniano que ninguém quer citar

Semana passada, o Wall Street Journal expôs: Musk mandou reduzir a velocidade da Starlink militar na Ucrânia. Drones pararam. Autoridades americanas e ucranianas foram pegas de surpresa.

A lição é cruel: uma penalidade contratual paga multa. Não religa satélite em tempo real.

SoBerania agora tem endereço de IP

Urnas são offline. Votos são criptografados. A integridade do voto não está em jogo. O que está?

A percepção. Atrasos na transmissão de boletins em 13 estados — Amazonas, Pará, Acre, Roraima, Maranhão e outros — alimentam narrativas. Em ano de polarização máxima, minutos de silêncio viram horas de suspeita.

O mapa das intervenções recentes

Musk não esconde o jogo. Em 2024, a Starlink desafiou ordem do STF no Brasil. No mesmo ano:

  • Ativou rede para contornar bloqueios no Irã
  • Ofereceu gratuidade à Venezuela pós-eleição
  • Negociou acesso em Gaza com Israel
  • Financiou campanha de Trump nos EUA
  • Apoiou AfD (Alemanha) e Vox (Espanha)

No Brasil, já declarou simpatia pela direita. Ainda não endossou Flávio Bolsonaro (PL) — mas o histórico fala.

O que observar a partir de segunda-feira

Três variáveis definem o próximo capítulo:

  • Latência real: quantos terminais falham e por quanto tempo?
  • Reação do TSE: haverá pressão por cláusulas diretas com a Starlink em 2026?
  • Movimento no Congresso: projeto de lei para infraestrutura crítica em mãos privadas já tramita.

A lição da Ucrânia é clara: quem controla o cabo — ou o satélite — controla o tempo da verdade. No domingo, o Brasil vai testar se contrato de R$ 8 milhões compra soberania ou apenas aluga sinal.