Tecnologia

Meta eleva aposta para US$ 145 bi e cria ações sem voto: o que muda

Mark Zuckerberg em destaque com logo da Meta e gráficos de investimento em IA de US$ 145 bi
Meta anuncia Capex de US$ 145 bi para 2026 e nova classe de ações sem voto para manter controle de Zuckerberg

A Meta confirmou que o ritmo de investimento em inteligência artificial vai acelerar ainda mais: o teto de capital projetado para 2026 subiu para US$ 145 bilhões. Paralelamente, a empresa desenhou uma nova classe de ações sem direito a voto, movimento que blindará o controle de Mark Zuckerberg enquanto financia a expansão. A combinação sinaliza que a gigante das redes sociais deixou a fase de “promessa” e entrou no modo “execução em escala” — mas a conta chega antes do lucro.

A conta bilionária da IA para 2026

O novo intervalo de investimentos de capital (CapEx) fica entre US$ 135 bilhões e US$ 145 bilhões. O piso anterior era de US$ 130 bilhões. Para colocar em perspectiva: nos primeiros nove meses deste ano, a Meta gastou cerca de US$ 86 bilhões. Ou seja, o fluxo de caixa precisará engordar significativamente no último trimestre e no ano que vem para fechar a conta no ponto médio de US$ 140 bilhões.

A diretora financeira Susan Li admitiu que o retorno desses aportes virá em prazo mais longo que o do negócio principal. A contrapartida imediata é a solidez da publicidade: a receita do terceiro trimestre saltou 26%, para US$ 64,6 bilhões, superando as estimativas.

Nova classe de ações: blindagem ou moeda de troca?

A manobra societária aprovada agora cria papéis sem voto distribuídos como dividendo em ações — na prática, um desdobramento de duas para uma. A negociação deve começar em janeiro. A empresa listou três usos diretos para essa “moeda” nova:

  • Captação de recursos sem diluir o poder de voto de Zuckerberg;
  • Remuneração de funcionários em um mercado de talentos de IA extremamente aquecido;
  • Possíveis aquisições estratégicas para preencher lacunas tecnológicas.

O comunicado oficial foi direto: a estrutura garante que Zuckerberg continue liderando a empresa “rumo à próxima era”. Para o investidor minoritário, fica a pergunta: a valorização da ação compensará a ausência de voz nas assembleias?

Muse: o “produto-mercado” que acalmou Wall Street

O grande trunfo da narrativa atual chama-se Muse. Lançado em setembro, o agente de IA atingiu 10 milhões de usuários nos EUA e Canadá em apenas seis semanas. Zuckerberg usou a expressão “adequação ao mercado” (*product-market fit*) — termo sagrado no Vale do Silício — para declarar o fim da fase experimental.

O assistente automatiza tarefas como compras, agendamentos e compra de ingressos. Chegou ao topo dos rankings de apps móveis, mas exige uma capacidade computacional massiva, o que explica por que ainda não há lançamento global. A meta agora é operacional: escalar a infraestrutura para sustentar a demanda.

Como a Meta pretende transformar uso em receita

O modelo de negócio do Muse difere do chatbot genérico. A gratuidade para a maioria dos usuários será mantida, mas a monetização virá por quatro frentes:

  • Taxas de transação pagas por empresas (ex: reservas, vendas);
  • Assinaturas para usuários intensivos e acesso a modelos avançados;
  • Ferramentas pagas para empresas integrarem o Muse em seus fluxos de trabalho;
  • Venda de capacidade de nuvem via nova divisão empresarial, comandada por CJ Desai.

Zuckerberg aposta que, se a eficiência computacional mantiver a curva de melhoria atual, o Muse se tornará “altamente lucrativo ao longo de vários anos”.

O contrapeso: Reality Labs e o corte de custos

Nem tudo é expansão. A divisão de hardware (Reality Labs) deve registrar prejuízo de US$ 19 bilhões em 2024, caindo para cerca de US$ 15 bilhões em 2027. O quadro de funcionários já encolheu 15% em um ano. A Meta está, literalmente, tirando de um bolso (metaverso/hardware) para colocar no outro (IA/servidores).

A projeção de receita para o quarto trimestre — entre US$ 73 bilhões e US$ 76 bilhões — mantém a publicidade como motor principal. O lucro por ação do Q3 veio em US$ 3,83, acima dos US$ 3,57 esperados.

O que observar daqui para frente

Três variáveis ditarão se a aposta de US$ 145 bilhões fará sentido para o acionista nos próximos 18 meses: a velocidade de lançamento global do Muse (e seu custo real por usuário), a adoção da nova plataforma de nuvem empresarial sob Desai e a capacidade da publicidade de sustentar margens enquanto o CapEx consome caixa livre. A nova classe de ações começa a ser negociada em janeiro; o volume e a volatilidade desses papéis dirão se o mercado comprou a tese de “próxima era” — ou apenas a blindagem do fundador.