Justiça

TSE discute bloquear canais políticos no WhatsApp a 48h do 2º turno: o que está em jogo

Ministros do TSE em sessão plenária discutem regulamentação de canais políticos no WhatsApp
TSE debate bloqueio de canais com mais de 200 mil seguidores nas 48h antes do 2º turno.

Ministros do Tribunal Superior Eleitoral debateram nos últimos dias uma resolução que restringiria canais de WhatsApp com mais de 200 mil seguidores nas 48 horas anteriores à votação de domingo. A medida, se aprovada, silenciaria redes que somam milhões de inscritos às vésperas do segundo turno.

A proposta dividiu a Corte e expôs um dilema: como equilibrar a integridade do pleito com a liberdade de comunicação em plataformas privadas de mensagens? O desfecho deve ser conhecido nas próximas horas.

Como a resolução funcionaria na prática

O texto em discussão equipara canais de transmissão política às regras de impulsionamento pago. Pela legislação atual, a propaganda paga na internet é permitida até 22 de outubro. Do dia 23 até 26 de outubro, a prática é vedada — inclusive para contratos já firmados.

A minuta estende essa vedação aos canais de WhatsApp, Telegram e plataformas similares que ultrapassem 200 mil seguidores. A restrição valeria do sábado (23) até a terça-feira (26), cobrindo o período sensível antes e depois da votação.

O que se enquadra na definição

  • Canais, grupos, comunidades ou listas de transmissão em apps de mensagens
  • Transmissões ao vivo de conteúdo político-eleitoral
  • Acesso aberto ou mediante convite
  • Administrados por candidatos, partidos, federações ou detentores de mandato

Os números por trás da polêmica

Dois canais ilustram o alcance da medida. O “Exército do Lula”, registrado oficialmente pela campanha petista em 13 de outubro, acumula cerca de 8 milhões de seguidores. O “Tropa do Flávio”, ligado ao senador Flávio Bolsonaro (PL), soma 2,7 milhões.

Juntos, eles superam 10 milhões de inscritos — uma audiência superior a muitos veículos de comunicação tradicionais. Qualquer restrição atinge diretamente a capacidade de mobilização das campanhas no momento decisivo.

Divisão interna no Tribunal

As discussões ocorreram em duas reuniões administrativas, nos dias 16 e 20 de outubro. Coube ao vice-presidente André Mendonça elaborar a minuta, seguindo a tradição de que o vice redige atos normativos para apreciação do colegiado.

Em nota, o gabinete de Mendonça afirmou que o texto “ainda está em discussão interna” e que “qualquer versão final depende de deliberação colegiada”. O objetivo declarado: “proteger a integridade do pleito nas horas que antecedem e sucedem a votação, quando não há tempo hábil para resposta ou correção de conteúdos ilícitos”.

O presidente Kassio Nunes Marques, porém, declarou à TV Globo não ser “favorável a mudança de última hora”. Segundo ministros ouvidos reservadamente, a resolução não deve prosperar no plenário.

O vaivém do “Exército do Lula” explica a urgência

O canal petista esteve no centro de uma batalha judicial nas últimas semanas. A campanha de Flávio Bolsonaro pediu sua suspensão por suposta disseminação de informações falsas. Nunes Marques determinou o bloqueio; o corregedor-geral Ricardo Villas Bôas Cueva contrariou a decisão e manteve o canal ativo.

Uma análise técnica do TSE, em 21 de outubro, não identificou conteúdos falsos nas publicações examinadas. No dia seguinte, Nunes Marques condicionou o funcionamento ao registro formal na Justiça Eleitoral — exigência cumprida pela campanha de Lula no dia 22.

O episódio expôs a fragilidade normativa: não há regra clara sobre canais de WhatsApp com alcance massivo. A proposta de Mendonça nasce dessa lacuna.

O que observar nas próximas horas

Três cenários se desenham. O mais provável, segundo integrantes da Corte, é o arquivamento da minuta por falta de consenso e pelo risco de insegurança jurídica às vésperas da eleição. Um segundo cenário: aprovação com modificações, talvez elevando o limite de seguidores ou restringindo o escopo a canais não registrados.

O terceiro, menos provável, seria a aprovação nos termos atuais — o que exigiria compliance imediato de plataformas e campanhas em menos de 48 horas.

Para empresários e profissionais de comunicação política, o sinal é claro: a regulação de canais privados de mensagens entrou na pauta definitiva da Justiça Eleitoral. Independentemente do desfecho de domingo, a discussão voltará em 2024 com mais maturidade — e, provavelmente, com regras permanentes.