Uma nova rodada da pesquisa Quaest revela um cenário de tensão máxima para o segundo turno: os dois principais candidatos aparecem separados por apenas um ponto percentual, dentro da margem de erro. Enquanto a disputa política esquenta, o Brasil registra recordes de fogo em propriedades rurais cadastradas e um escândalo de vigilância ilegal em colégio cívico-militar expõe falhas graves de proteção a estudantes.
Os dados mostram um país fragmentado, onde urnas, florestas e delegacias contam histórias diferentes — mas igualmente urgentes — sobre o momento atual.
O que dizem os números na reta final
O levantamento divulgado nesta quinta-feira coloca o candidato Flávio com 45% das intenções de voto válidos, contra 44% de Lula. A diferença de um ponto percentual coloca a corrida em empate técnico, considerando a margem de erro de dois pontos para mais ou para menos.
Na prática, isso significa que não há favorito estatístico. Cada voto indeciso e cada eleitor que comparecer às urnas no dia 27 pode inverter o resultado. A pesquisa ouviu 1.200 pessoas entre os dias 21 e 23 de outubro, com nível de confiança de 95%.
O cenário expõe um eleitorado rachado ao meio, onde a mobilização de última hora e a abstenção terão peso decisivo. Ambos os lados apostam no corpo a corpo e na digital para converter os últimos indecisos.
Amazônia: o fogo tem endereço e CPF
Enquanto a política domina as manchetes, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) entrega um diagnóstico alarmante a pedido do g1. Em outubro, oito a cada dez focos de calor detectados no Amazonas estavam dentro de imóveis rurais privados registrados no Cadastro Ambiental Rural (CAR).
O dado derruba a narrativa de que os incêndios seriam majoritariamente acidentais ou concentrados em terras públicas não destinadas. A análise cruzou satélites de monitoramento com a base oficial de cadastros, revelando que o fogo tem dono, coordenadas e documento.
- 80% dos focos em outubro ocorreram em áreas com CAR ativo
- O Amazonas lidera o ranking de queimadas no bioma este mês
- A seca histórica potencializa a propagação, mas a ignição é majoritariamente humana
Especialistas ouvidos pela reportagem apontam que o cadastro, criado para facilitar o controle ambiental, virou em muitos casos um “atestado de propriedade” sem fiscalização efetiva. O cruzamento de dados agora permite identificar responsáveis — se houver vontade política para puni-los.
Violência em série: de festa de deputado a esquartejamento na Marginal
No front da segurança pública, três episódios em menos de 24 horas ilustram a escalada de brutaldade. Em São Paulo, a Polícia Militar matou a tiros um suspeito durante confronto na Marginal Tietê. No mesmo local, dentro de sacos plásticos, foi encontrado o corpo esquartejado de uma mulher — vítima ainda não identificada.
No Rio de Janeiro, o influenciador Fred Bruno foi incluído como vítima de lesão corporal no inquérito que apura disparos de arma de fogo em uma festa ligada ao deputado estadual Marcelo Aguiar. A investigação corre em segredo de justiça, mas a inclusão do nome no rol de vítimas sinaliza que o Ministério Público enxerga materialidade no caso.
Casos assim alimentam o debate sobre protocolos de abordagem, preservação de locais de crime e a influência de mandatos parlamentares em apurações sensíveis.
O olho que não era sensor: anos de violação em colégio do Paraná
O caso mais revoltante da semana veio de um colégio cívico-militar no Paraná. Alunas denunciaram que uma câmera escondida no banheiro feminino funcionava há anos. A direção da escola, ao ser questionada, alegava que o equipamento era um “sensor de fumaça”.
A mentira institucional durou até que estudantes e familiares pressionaram por uma vistoria técnica. A polícia foi acionada, o equipamento apreendido e a investigação apura agora quantas imagens foram captadas, armazenadas e quem tinha acesso ao material.
O episódio reacende o debate sobre a militarização de escolas públicas e a ausência de canais seguros de denúncia para estudantes. Pais relatam que reclamações anteriores foram ignoradas sob a justificativa de “disciplina e ordem”.
O que observar nas próximas semanas
Três frentes merecem acompanhamento contínuo. Na política, os próximos trackings de intenção de voto dirão se a estabilidade do empate técnico se mantém ou se algum fato novo — debate, escândalo, endosso de peso — move a agulha.
Na Amazônia, a pressão por autuações baseadas no cruzamento CAR/satélite deve crescer. O governo federal prometeu endurecer multas e embargos, mas a capacidade operacional do Ibama e ICMBio segue limitada.
Já no Paraná, o inquérito da câmera no banheiro pode descortinar uma rede de omissão que vai além da direção da escola. O Ministério Público estadual já instaurou procedimento para apurar responsabilidade de gestores regionais de educação que receberam denúncias e não atuaram.
Em comum, os três eixos expõem a mesma raiz: a impunidade seletiva. Seja no voto, na floresta ou no banheiro de uma escola, quem detém poder — político, econômico ou hierárquico — segue testando os limites do que pode fazer sem consequência. A resposta virá das urnas, dos tribunais e da rua. Não necessariamente nessa ordem.
