Justiça

PF pede inquérito ao STF: Flávio Bolsonaro seria sócio oculto de bet bilionária?

Senador Flávio Bolsonaro e símbolos de apostas online com logotipo STF e Polícia Federal
PF pede inquérito ao STF para investigar suposta sociedade oculta de Flávio Bolsonaro em bet bilionária.

A Polícia Federal solicitou ao Supremo Tribunal Federal a abertura de inquérito para apurar se o senador Flávio Bolsonaro (PL) atua como sócio oculto da BestBet, casa de apostas online licenciada no Rio de Janeiro. O pedido coloca no centro das atenções uma teia societária que movimenta bilhões e envolve o maior apostador do país.

O alvo principal da investigação por lavagem de dinheiro é o advogado Willer Tomaz, sócio ostensivo da operação e amigo próximo do parlamentar. Tomaz figura como o maior apostador individual do Brasil, com R$ 5 bilhões em movimentações registradas. A suspeita dos investigadores: a amizade mascararia uma parceria financeira não declarada.

A estrutura que esconde os verdadeiros donos

O desenho societário foi montado em camadas. Tomaz e seus familiares controlam a maioria das ações da Cathedral Holdings, holding portuguesa que é a única acionista da Rede Loto. Esta, por sua vez, controla a BestBet — a marca que opera no mercado brasileiro.

A complexidade não para aí. Documentos obtidos pela revista Piauí revelam que a Cathedral financiou outra empresa, a Alcazar Holdings, supostamente ligada a Flávio Bolsonaro. Ambos, senador e advogado, teriam mantido uma conta conjunta por meio dessa estrutura.

O que os números mostram — e o que eles escondem

A contabilidade da Cathedral aponta um salto nas contas a receber: de 7,8 mil euros em 2024 para 984 mil euros em 2025. No mesmo período, a dívida da Alcazar saltou de 8,1 mil para 824 mil euros — valores quase espelhados, sugerindo fluxo direto entre as duas empresas.

  • R$ 5 bi em apostas movimentadas por Willer Tomaz
  • 984 mil euros a receber pela Cathedral em 2025
  • 824 mil euros de dívida da Alcazar no mesmo exercício
  • 5% de taxa variável paga à Loterj desde junho de 2023

A bet que “nunca operou” — mas pagou outorga

Em nota, Willer Tomaz afirma que a BestBet nunca iniciou operações. Registros do Internet Archive contradizem a versão: o site bestbet.com.br está no ar desde dezembro de 2023. Mais contundente: a Loterj, autarquia fluminense que regula o setor, registra pagamentos de taxa de outorga variável — 5% da receita bruta com jogos — desde junho de 2023.

Se não há operação, não há receita. Se não há receita, não há base para o recolhimento. A existência dos pagamentos à Loterj indica atividade comercial real, ainda que não declarada publicamente pelos sócios ostensivos.

Lucros aprovados para um futuro próximo

Uma ata registrada na Junta Comercial de São Paulo em 3 de fevereiro mostra que a Rede Loto aprovou a distribuição dos lucros acumulados até 31 de dezembro de 2025 — data futura no momento do registro. O estatuto da companhia determina que a única beneficiária é a Cathedral Holdings.

O movimento antecipado de distribuição de resultados, combinado com o salto nos balanços das holdings, reforça a hipótese de que recursos circulam entre as empresas do grupo antes mesmo de serem formalizados nos demonstrativos contábeis padrão.

O que observar daqui para frente

O inquérito no STF ainda depende de autorização do ministro relator. Se aberto, poderá requisitar quebras de sigilo bancário e fiscal das holdings envolvidas — Cathedral, Alcazar e Rede Loto — além do cruzamento de dados com a Loterj e o COAF.

Para investidores e operadores do setor de apostas, o caso sinaliza dois vetores de risco: maior escrutínio regulatório sobre estruturas societárias opacas e pressão por transparência nos fluxos entre holdings offshore e operadoras locais. A Loterj, que já cobra a outorga variável, pode ser compelida a revisar critérios de habilitação e monitoramento de beneficiários finais.

A campanha de Flávio Bolsonaro não respondeu aos questionamentos até o fechamento desta reportagem. Em manifestações anteriores, classificou as suspeitas como “mera ilação”. Willer Tomaz nega irregularidades e afirma que a publicação distorce documentos. A investigação dirá se a versão oficial resiste ao rastro do dinheiro.