Quando o orçamento aperta, o consumidor com múltiplos cartões tem um critério claro: a fatura do banco digital é a primeira a ser quitada. Estudo do Banco Central revela que a inadimplência em fintechs é 15 pontos percentuais menor que em bancos tradicionais — 30% contra 45% — quando o mesmo cliente possui contas em ambas as instituições.
O dado surpreende porque quebra a lógica de que o relacionamento mais antigo prevaleceria. A pesquisa, assinada por pesquisadores da FGV, Insper e Duke University, cruzou informações de devedores com dois ou mais cartões ativos. Apenas 16% dos inadimplentes dão calote em todas as faturas simultaneamente.
O peso do limite e dos outros empréstimos
Além da preferência por fintechs, dois fatores elevam a chance de pagamento: ter financiamento imobiliário no mesmo banco reduz o risco de calote em 10 pontos percentuais; financiamento de veículo, em 5 pontos. Limites de crédito mais altos também funcionam como garantia — a probabilidade de quitação sobe 5 pontos quando o teto é maior.
Esses padrões são intuitivos: ninguém quer prejudicar a instituição que financia sua casa ou seu carro, nem aquela que oferece maior poder de compra. Mas a preferência pelas fintechs exige explicações mais profundas.
Duas hipóteses para o fenômeno digital
Segundo Bernardo Ricca, professor do Insper e um dos autores do estudo, há dois caminhos principais. O primeiro é afetivo: para parcela significativa da população, a fintech foi a primeira conta bancária — o que cria um vínculo de “primeira vez” difícil de replicar.
A segunda hipótese é operacional: a estrutura de cobrança e renegociação dos bancos digitais pode ser simplesmente mais eficiente. Apps com notificações em tempo real, parcelamento automático e canais de negociação 100% digitais reduzem o atrito para pagar.
O cenário por trás dos números
No segundo trimestre de 2024, o Brasil contava com 243 milhões de cartões de crédito ativos — alta de 92% desde o pré-pandemia. O total supera a população do país (213,4 milhões), confirmando a multiplicidade de plásticos por pessoa.
- 46% dos usuários ativos têm mais de um cartão
- 25% operam com duas instituições
- 11% com três
- 8% com quatro ou mais
O limite médio acompanha a quantidade: quem tem um cartão acessa R$ 7,1 mil em média; com cinco cartões, o teto salta para R$ 23,3 mil. Mais plástico, mais exposição — e mais necessidade de escolher quem recebe primeiro.
A corrida pela principalidade
Esse “calote seletivo” explica a ofensiva dos bancos pela fidelização. Ser o “banco principal” do cliente não é apenas status: significa estar no topo da fila de pagamentos quando a renda não cobre tudo. Produtos de cashback, contas globais, investimentos integrados e benefícios exclusivos são armas nessa disputa.
Ricca alerta: a competição pela preferência pode beneficiar o consumidor com serviços melhores, mas também estimula a concessão de limites maiores — e, consequentemente, um endividamento mais profundo.
O que observar nos próximos trimestres
O Banco Central monitora de perto a qualidade do crédito rotativo e a evolução da inadimplência seletiva. Para investidores e gestores de risco, o indicador-chave será a migração de clientes entre bandeiras: se fintechs mantiverem a prioridade de pagamento mesmo em cenários de recessão, seus índices de provisão para devedores duvidosos permanecerão estruturalmente mais baixos que os dos grandes bancos. Para o empresário que concede crédito ou parcelamento, a lição é clara: a experiência digital de cobrança e renegociação pode valer mais que décadas de relacionamento físico.
