A disputa pelo modelo de Estado brasileiro ganhou um novo capítulo nas entrelinhas da campanha: a substituição de mão de obra humana por inteligência artificial. De um lado, a equipe de Flávio Bolsonaro (PL) acena com economia bilionária via automação; do outro, o governo Lula (PT) trata a tecnologia como ferramenta de apoio, não substituto. O embate expõe visões irreconciliáveis sobre o futuro de 12 milhões de servidores e o destino de estatais estratégicas.
O confronto direto ocorre entre a ministra da Gestão, Esther Dweck, e Daniella Marques, porta-voz econômica de Flávio. A discussão, however, vai muito além da IA. Reforma administrativa, política salarial, concursos e privatizações formam um mosaico onde cada peça mexe no bolso do contribuinte e na eficiência da máquina pública.
O algoritmo no lugar do concursado
Em evento do Lide, Daniella Marques lançou a proposta mais radical: substituir carreiras administrativas e operacionais por IA. A conta apresentada cita um contingente de 12 milhões de servidores com custo anual de R$ 50 bilhões. A promessa é uma “reforma administrativa digital” para enxugar a folha.
Após repercussão negativa, a assessora recuou parcialmente. Em vídeo fixado no Instagram, garantiu que as regras de estabilidade não mudam e que o foco é produtividade. “Todas as empresas do mundo estão fazendo, exceto o governo brasileiro, que é obsoleto, analógico e caro”, disse.
A resposta de Esther Dweck foi técnica: IA auxilia, mas não decide. A ministra citou a aplicação de vacinas e a responsabilidade por erros algorítmicos como barreiras intransponíveis. “Não pode ter IA tomando decisões sem humanos revisando. Imagina o governo negar um benefício por erro de modelo e não ter quem responsabilizar”, afirmou.
Reforma: PEC “bala de prata” vs. medidas infraconstitucionais
O modelo de reestruturação é o ponto de divergência mais profundo. A campanha de Flávio defende retomar uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) — nos moldes da PEC 32 do governo anterior — com meta declarada de economizar R$ 40 bilhões somando reforma e digitalização. O discurso foca em “reduzir o peso da burocracia” e cortar ministérios.
Para Dweck, a conta não fecha sem demissão em massa. “A única forma de conseguir R$ 40 bi no gasto de pessoal é demitindo gente”, rebateu. A estratégia do governo atual dispensa PEC: são 80 medidas infraconstitucionais já implementadas. O carro-chefe é o sistema de desempenho, que condiciona progressão de carreira à performance, não apenas ao tempo de serviço.
- Lado Flávio: PEC constitucional, meta de R$ 40 bi, foco em corte de estruturas.
- Lado Lula: Medidas administrativas, gestão por desempenho, sem alteração constitucional.
Salários: reajuste garantido ou valorização seletiva?
No campo remuneratório, a diferença é de método. O governo Lula já prevê no PLOA 2027 recursos para recomposição inflacionária, embora o percentual final dependa de negociação fiscal. “Foi previsto orçamento, mas passa por muitas conversas”, admite o secretário José Celso Pereira.
Flávio evita compromisso com reajuste linear. A prioridade declarada é fortalecer “carreiras típicas de Estado” (CGU, CVM, Bacen), com possibilidade de remuneração diferenciada. No flanco dos supersalários, a equipe do senador adota tom mais agressivo: promete acabar com penduricalhos e privilégios como férias de 60 dias para magistrados. O governo petista tentou, sem sucesso, aprovar teto no Congresso e evita o tema no discurso corrente.
Concursos: previsibilidade do CNU vs. demanda pontual
A continuidade do Concurso Nacional Unificado (CNU) é a aposta da gestão atual para 2027. O objetivo é acabar com o vácuo de até dez anos sem seleção em carreiras críticas, como auditores-fiscais do trabalho. A palavra-chave é previsibilidade na renovação dos quadros.
No plano opositor, a lógica é outra: concursos apenas para carreiras de Estado e conforme “necessidades e demandas de aperfeiçoamento do atendimento”. A equipe fala em levantamento de vagas durante eventual transição, sem calendário fixo.
Estatais: a linha vermelha dos dados e do lucro
O Programa Nacional de Desestatização (PND) é a bandeira de Flávio para retomada imediata. O critério seria “avaliar caso a caso onde a presença do Estado deixou de fazer sentido”. Embora o candidato já tenha citado privatizar 90% das empresas, assessores blindam Caixa, Banco do Brasil e Petrobras.
Lula veta a privatização. O argumento central de Dweck usa Serpro e Dataprev: lucrativas, detentoras dos dados de todos os brasileiros e, por isso, estratégicas para a soberania nacional. Ambas estiveram no PND na gestão anterior e foram retiradas.
O que observar daqui para frente
O eleitor — e o investidor — deve monitorar três variáveis decisivas. Primeira: a viabilidade fiscal de promessas de economia sem PEC ou sem corte de pessoal. Segunda: a capacidade de implementar gestão de desempenho em escala na máquina federal, algo inédito no Brasil. Terceira: a reação do Congresso a qualquer tentativa de mexer em supersalários ou estabilidade, tema que historicamente trava no Legislativo. O desenho do Estado em 2027 depende menos do discurso de palanque e mais da arte da negociação parlamentar.
