Cultura

O segredo do ciclista que cruzou a América do Sul com R$ 50 e uma bicicleta

Willian Gomes pedalando bicicleta carregada na Carretera Austral chilena
Willian Gomes atravessa a Carretera Austral com sua casa sobre duas rodas rumo a Ushuaia.

Willian Gomes, de 26 anos, acaba de cruzar a fronteira para o Chile pedalando uma bicicleta carregada com a própria casa. O tocantinense partiu de Colinas do Tocantins há quase um ano rumo a Ushuaia, no extremo sul da Argentina, e já soma mais de 10 mil quilômetros nas pernas. A pergunta que fica: como alguém atravessa um continente inteiro com orçamento de mochileiro e sem carro de apoio?

A rota que mudou tudo: 1.240 km de Carretera Austral

Após cinco meses parado na Argentina esperando o inverno rigoroso passar, Willian optou por não seguir pela estepe desértica. Ele escolheu a Carretera Austral, a lendária rota chilena de 1.240 km que corta fiordes, geleiras e florestas temperadas. Atualmente, ele descansa em Puyuhuapi, vilarejo na região de Aysén famoso por termas naturais e acesso ao Parque Nacional Queulat.

O próximo marco é Coyhaique, a maior cidade da região e ponto estratégico de reabastecimento. Dali, o plano é cruzar de volta para a Argentina e atacar os últimos quilômetros até o “Fim do Mundo”. A janela climática, porém, é curta e implacável.

Sobrevivência na estrada: o que ele come e onde dorme

A logística de Willian dispensa estruturas complexas. A autonomia é a regra, e a generosidade alheia, o combustível extra. Veja como funciona o dia a dia:

  • Alimentação: Fogareiro portátil para arroz, macarrão e café; no Brasil, marmitas doadas em restaurantes; no Cone Sul, convites para almoços em casas de estranhos que viram amigos.
  • Abrigo: Barraca ou rede na maior parte das noites; quartos cedidos por famílias no Uruguai e Argentina em dias de chuva forte.
  • Transporte: Recusa sistemática a caronas. “Minha casa está na bicicleta”, resume. O desafio físico e mental é o próprio objetivo.

O preparo invisível: marcenaria e saúde mental

Antes de virar nômade, Willian construía móveis planejados no interior do Tocantins. A transição de oficina para estrada não foi apenas geográfica. Ele admite que o maior obstáculo não foi mecânico nem financeiro — foi preparar a cabeça para a solidão de longas distâncias e a incerteza diária.

Essa base psicológica explica por que ele mantém a rota mesmo sem sinal de internet por dias. As atualizações nas redes sociais acontecem apenas em paradas estratégicas, transformando o silêncio em parte da narrativa da viagem.

O que observar nas próximas semanas

A travessia da Carretera Austral exige respeito ao clima: ventos laterais fortes, chuva constante e temperaturas baixas mesmo no verão austral. Willian precisa atingir Ushuaia antes que o outono australe feche os acessos montanhosos. Quem acompanha a jornada deve ficar atento à passagem pelo passo fronteiriço entre Chile e Argentina — o último grande gargalo logístico antes da linha de chegada.