O desemprego no Chile atingiu 9,6% no terceiro trimestre, o maior patamar em mais de cinco anos, sinalizando que o choque de austeridade do governo José Antonio Kast aprofundou a recessão técnica antes de qualquer recuperação. A contração do PIB por dois trimestres consecutivos — algo não visto desde a pandemia — colocou o país na lanterna do crescimento latino-americano para 2026. Mas, nos bastidores, economistas projetam uma inversão de cenário já no primeiro trimestre do ano que vem.
O choque que travou a máquina
A decisão de não segurar o preço dos combustíveis após a escalada do petróleo — o chamado “bencinazo” — transferiu para o consumidor final um aumento de 30% na gasolina e mais de 40% no diesel em poucos meses. Como o Chile importa praticamente todo o petróleo que consome, o efeito cascata elevou a inflação a 4,1% em 12 meses até julho, corroendo o poder de compra e freando a demanda interna.
O resultado imediato apareceu nos números: investimentos produtivos estagnados, construção civil em queda e vendas de supermercados recuando 1,2% em agosto na comparação anual. O ministro da Fazenda, Jaime Quiroz, pediu calma a empresários, mas a desaprovação do governo já supera 60%.
Mineração no fundo do poço de 30 anos
Se o combustível machucou o bolso das famílias, a mineração feriu a espinha dorsal exportadora. A produção de cobre — principal produto do país — desabou 17,4% em agosto na base anual, atingindo o menor nível em três décadas. Interrupções operacionais e clima adverso agravaram um quadro que já vinha negativo.
Essa queda forçou o Banco Central a cortar a projeção de crescimento para uma faixa entre 0,25% e 0,75% em 2026. O FMI é ainda mais conservador: 0,6%. Apenas a Bolívia tem perspectiva pior na região.
Austeridade, “Megarreforma” e a mudança de rota
Desde março, a gestão Kast cortou 3% do orçamento de todos os ministérios, encerrou programas considerados ineficientes e reduziu investimento público direto. A estratégia reduziu o déficit, mas, segundo Nicolás Saldías (EIU), também subtraiu demanda da economia.
Em outubro, o Congresso aprovou a “megarreforma” tributária: corte progressivo do imposto corporativo de 27% para 23% e garantia de estabilidade tributária para grandes projetos. A aposta é que o incentivo privado compense o freio público.
- Déficit fiscal: Em queda via corte de gastos.
- Imposto corporativo: Caminho para 23% até 2027.
- Investimento público 2027: Crescimento real de apenas 1,5%.
O plano de emergência de US$ 1,3 trilhão
Rompendo com o discurso inicial de austeridade pura, o governo anunciou um pacote de emprego de cerca de US$ 1,3 trilhão (R$ 6,5 trilhões) para criar 100 mil vagas entre 2026 e 2027. A medida acelera obras públicas e subsidia contratações privadas — um reconhecimento tácito de que o setor privado não reagiu na velocidade esperada.
Para Felipe Hernández (Bloomberg Intelligence) e Joan Domene (Oxford Economics), se as reformas tributárias forem implementadas sem ruídos e o preço da energia não trouxer novas surpresas, os indicadores devem virar no primeiro trimestre de 2027.
O que observar daqui para frente
O orçamento de 2027, em discussão no Congresso, será o termômetro real da disposição política para sustentar a recuperação. A oposição já questiona o crescimento real de gastos de apenas 1,5%, alegando riscos a programas sociais. Para o investidor e o empresário, três variáveis ditam o ritmo nos próximos seis meses: a execução efetiva do pacote de emprego, a estabilidade do preço do cobre e a capacidade do governo de manter a credibilidade fiscal sem sufocar a atividade. Quem posicionar caixa agora para a virada projetada no primeiro trimestre do ano que vem pode capturar a assimetria de um mercado que ainda precifica recessão.
