O cofundador do Waze e investidor do Moovit, Uri Levine, afirma que o Brasil não é hostil ao empreendedorismo — é complexo, o que afasta concorrentes estrangeiros e cria vantagem para quem já está aqui. Mas será que essa complexidade realmente se traduz em oportunidade real para novos negócios? A resposta dele surpreende até os mais céticos.
A complexidade como barreira de entrada
Levine descarta dois mitos frequentes: o de que o país seria hostil a fundadores e o de que ciclos de venda seriam mais longos. “Vender é difícil. É apenas isso”, resume. Para ele, a complexidade — tributária, regulatória, cultural — funciona como filtro natural.
Enquanto gigantes norte-americanas demoram a perceber o momento de entrar no mercado brasileiro, empreendedores locais e investidores atentos ocupam o vácuo. O resultado é um ecossistema com menos concorrência direta e margens mais atrativas para quem sabe navegar o ambiente.
Dois unicórnios e uma academia só no Brasil
O currículo do investidor dá peso à tese. Ele participou da venda de dois unicórnios por cerca de US$ 1 bilhão cada — Waze (para o Google) e Moovit (para a Intel). Desde 2016, integra o conselho da Here Technologies e preside o board da Zoomcar, plataforma indiana de compartilhamento de veículos.
Sua conexão com o país vai além de aportes:
- O primeiro livro, “Apaixone-se pelo Problema, Não pela Solução”, vendeu mais na edição brasileira que na original em inglês.
- O segundo, “O Simples Vence”, foi lançado exclusivamente em português.
- Criou a Uri Levine Startup Academy, escola online disponível só no Brasil, com meta de formar 100 mil empreendedores.
Retenção: a única métrica que importa
No início do Waze, investidores duvidavam: por que alguém usaria GPS para rotas que já conhecia? A resposta veio na retenção. “Significa que você criou valor para o seu cliente”, explica Levine. Hoje, ele repete o mantra em palestras e conselhos a fundadores.
O princípio guiou outros investimentos. A Pontera, plataforma que permite a consultores gerenciar planos de previdência nos EUA, já é avaliada entre US$ 500 milhões e US$ 1 bilhão. FairFly, Refundit, SeeTree e Fibo completam o portfólio ativo.
Por que inovação é superestimada
Levine provoca: “As pessoas não estão procurando algo novo. Talvez 10% da população queira algo mais valioso do que já tem. A grande maioria tem medo de mudanças”.
Para ele, o “bom o suficiente” vence sempre. Se o produto resolve a dor do usuário sem atrito, a troca não acontece. Isso vale para navegação, mobilidade urbana — e para qualquer SaaS que dispute atenção no celular do brasileiro.
O fator social que ninguém calcula
O investidor destaca um ativo ignorado em planilhas: a sociabilidade digital do país. WhatsApp e Instagram não são apenas apps; são infraestrutura de relacionamento. “Existe muito diálogo entre as pessoas”, diz. Esse efeito de rede acelera adoção orgânica e reduz custo de aquisição — vantagem competitiva difícil de replicar.
Some-se a demora de players globais em priorizar o Brasil e o cenário fica claro: janela aberta para quem executa com velocidade e foco em retenção.
O que observar daqui para frente
Se a tese de Levine se sustenta, três movimentos merecem atenção nos próximos trimestres: (1) entrada de fundos internacionais em rodadas série A e B de startups brasileiras maduras; (2) expansão de modelos “good enough” que resolvem dores específicas de PMEs; (3) consolidação de ecossistemas regionais fora do eixo São Paulo–Rio, impulsionados por academias e programas de formação em escala. Quem mapear esses sinais cedo captura o valor que a complexidade esconde.
