O dólar comercial fechou a terça-feira (20) cotado a R$ 5,019, menor nível em semanas, enquanto o Ibovespa disparou 1,57% e superou os 208 mil pontos. O movimento não é isolado: é o terceiro pregão seguido de queda da moeda americana, que já acumula recuo de 8,56% no ano. Mas a pergunta que fica é: até onde vai esse fôlego?
O gatilho externo que ninguém ignorou
O índice DXY, termômetro do dólar frente a seis moedas fortes, caiu 0,26% na sessão. O motivo imediato: dados fracos do setor imobiliário dos EUA reforçaram apostas de que o Federal Reserve pode desacelerar o aperto monetário. Com os rendimentos dos Treasuries em baixa, o capital busca alternativas — e o Brasil entrou no radar.
O petróleo Brent, referência global, ajudou ao recuar 0,69% para US$ 108,79 o barril. A expectativa de avanço nas negociações entre EUA e Irã aliviou o prêmio de risco geopolítico. Menos pressão no petróleo significa inflação mais comportada lá fora — e, por tabela, mais espaço para juros menores nas grandes economias.
Por que o real está entre os favoritos
Três vetores convergiram ontem:
- Fluxo estrangeiro: entrada líquida de recursos na B3, atraída pela combinação de valuations atrativos e cenário político monitorado;
- Juros futuros: a curva a termo sinaliza expectativa de Selic mais branda adiante, beneficiando ações sensíveis a crédito e consumo;
- Carry trade: com o diferencial de juros ainda elevado, o real segue como moeda de financiamento atrativa para operações de arbitragem.
O resultado prático: o dólar acumulou queda de 3,02% apenas em outubro. Quem comprou moeda no início do mês já vê perda nominal relevante.
O fator eleitoral que move a bolsa
O Ibovespa renovou máxima desde 9 de outubro ao tocar 208.941 pontos na intraday. Setores cíclicos — varejo, construção, bancos médios — lideraram os ganhos, reagindo à leitura de que o cenário político pode favorecer continuidade de reformas fiscais e monetárias.
Não há consenso, porém. Parte do mercado precifica volatilidade nas próximas semanas, à medida que pesquisas e debates afinam as probabilidades. O volume financeiro acima da média sugere que grandes gestores estão reposicionando carteiras, não apenas especuladores de curto prazo.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar o ritmo nas próximas sessões: a divulgação do IPCA-15 (prévia da inflação) na quinta-feira, o desenho final das propostas fiscais dos candidatos e a ata do Copom, que pode calibrar a comunicação sobre o ciclo de cortes. Se o exterior mantiver o tom dovish e o petróleo não voltar a subir, o caminho para R$ 4,95 fica aberto — mas qualquer ruído político inverte a mão em horas.
Para o investidor, a lição é clara: a janela de oportunidade existe, mas a liquidez pode secar rápido em ano eleitoral. Monitorar o fluxo diário de estrangeiros e a inclinação da curva de juros real é mais útil do que tentar acertar o fundo do dólar.
