A massa salarial do agronegócio brasileiro fechou o segundo trimestre em R$ 72 bilhões, alta de 2,5% na comparação anual. Mas a divisão desse bolo revela uma realidade desigual: enquanto empregados e empregadores viram ganhos reais, quem trabalha por conta própria amargou queda na renda.
Os dados, compilados pelo Cepea e pela CNA, mostram um setor em transformação profunda. A renda média real subiu 3,7%, chegando a R$ 2.972, puxada por uma valorização expressiva na pecuária. Entender para onde o dinheiro está fluindo — e qual o perfil da nova mão de obra — é essencial para quem toma decisão de investimento ou gestão no campo.
Onde o dinheiro parou: a fatia de cada elo
Dos R$ 72 bilhões totais, os empregados formais e informais ficaram com R$ 46 bilhões, avanço de 2,8%. Os empregadores embolsaram R$ 9 bilhões, com o maior salto proporcional: 7,9% a mais que no ano anterior. O restante coube aos trabalhadores por conta própria, único grupo a registrar perda real de rendimento, recuando 3,1% no período.
Essa assimetria sugere que a estruturação de cadeias mais verticalizadas e a adoção de tecnologia beneficiam quem tem capital ou vínculo formal, pressionando a margem do produtor autônomo.
Escolaridade muda a cara do campo
O perfil da ocupação no agro está longe do estereótipo de baixa qualificação. A população ocupada sem nenhuma instrução caiu 3,3%, embora ainda some 1,44 milhão de pessoas (5% do total). Em contrapartida, trabalhadores com nível superior — completo ou incompleto — saltaram 5,4%, atingindo 4,94 milhões e representando 17% da força de trabalho.
Esse movimento indica uma transição acelerada: o campo demanda cada vez mais gestão de dados, operação de máquinas de precisão e conformidade regulatória.
Formalidade avança, mas informalidade resiste
O mercado de trabalho do setor bateu recorde de ocupados: 28,28 milhões. A carteira assinada cresceu 0,5%, chegando a 9,88 milhões de postos. Já os sem carteira recuaram 1,7%, totalizando 4,2 milhões.
Mulheres já respondem por 38% da força de trabalho, percentual que vem subindo de forma consistente nos últimos levantamentos.
- Agrosserviços: 10,6 milhões de ocupados (maior empregador).
- Produção primária: 7,8 milhões.
- Destaques na primária: Bovinocultura (1,73 mi), Café em safra (788 mil), Horticultura (531 mil).
Pecuária puxa ganhos reais; lavoura cresce menos
O bom momento do ciclo do boi gordo se reflete nos contracheques. Empregados da pecuária tiveram alta real de 8% na renda média mensal. Os da agricultura avançaram 4,4%, para R$ 2.154.
No topo da pirâmide, empregadores da pecuária viram rendimento médio de R$ 8.961 (+5,7%), enquanto os da agricultura chegaram a R$ 8.615, com salto expressivo de 14,5%.
Boi gordo: a corrida para o topo de 2020
A arroba já é negociada a R$ 380, acumulando 4,4% de alta apenas neste mês. A escalada começou em setembro, sustentada pela oferta restrita de animais terminados. Mesmo com o fim da cota extra de 55% para a China, os preços não cederam.
Em termos reais, o patamar atual retorna ao recorde nominal de meados de novembro de 2020 — que, corrigido pela inflação, equivaleria a R$ 385 hoje. A distância para o topo histórico é de apenas R$ 5.
Arroz dá trégua após susto inflacionário
Depois de tocar R$ 83 a saca na primeira semana do mês no Rio Grande do Sul, o cereal recuou para R$ 82 nesta terça-feira (20). O alívio momentâneo tira pressão do varejo, mas a volatilidade climática no Sul mantém o mercado atento às próximas safras.
O que observar daqui para frente
A combinação de massa salarial recorde, força de trabalho mais qualificada e ciclo de alta na pecuária desenha um cenário de maior produtividade, mas também de custos fixos mais elevados. O gargalo da informalidade ainda relevante (4,2 milhões) e a queda de renda dos autônomos sinalizam que a modernização não chega a todos no mesmo ritmo.
Para os próximos trimestres, três variáveis ditam o ritmo: a recomposição do rebanho e seu impacto na oferta de boi, o desfecho da safra de arroz no Rio Grande do Sul e a capacidade do setor de absorver mão de obra qualificada sem pressionar ainda mais a folha de pagamento.
