Tecnologia

Ceará: O segredo por trás da maior revolução de data centers do Brasil

Data center hiperescala no complexo industrial do Pecém, Ceará, impulsionado por energia renovável e cabos submarinos
O Ceará lidera a maior revolução de data centers do Brasil com energia limpa e conexão global via cabos submarinos no Pecém.

O Ceará está construindo o maior data center em operação do Brasil e já tem outros dez projetos hiperescala encaminhados para a região do Pecém. O que explica esse movimento repentino de gigantes da tecnologia rumo ao Nordeste?

A resposta passa por dois ativos que poucas regiões no mundo combinam na mesma proporção: energia renovável abundante e o segundo maior hub de cabos submarinos do planeta, instalado em Fortaleza.

Energia limpa e cabos submarinos: a combinação vencedora

Especialistas reunidos na terceira edição do Atlantic Convergence, em Lisboa, foram unânimes ao apontar a infraestrutura energética e de conectividade como o motor da transformação. O estado desenhou sua agenda de expansão energética antes mesmo do boom da inteligência artificial, o que o colocou na dianteira quando a demanda explodiu.

Luciano Charlita de Freitas, especialista em Transformação Digital e Inteligência Artificial do Banco Mundial, resume o cenário: o Ceará possui um cinturão digital que cobre todos os municípios e recebe cabos submarinos internacionais, criando condições para se tornar exportador global de dados — não apenas para o mercado brasileiro.

  • Capacidade instalada: deve multiplicar nos próximos anos com os dez projetos hiperescala no Pecém
  • Conectividade: Fortaleza é o segundo ponto de maior conectividade submarina do mundo
  • Energia: matriz renovável consolidada antes da corrida por data centers

Banco Mundial mira financiamento e hidrogênio verde

A instituição mantém portfólio de US$ 1 bilhão no Brasil e já investe em projetos de hidrogênio verde no estado. As conversas com a gestão estadual avançam para financiar novas iniciativas de tecnologia, sinalizando confiança internacional na trajetória cearense.

Para Charlita, a combinação de mão de obra qualificada, conhecimento do negócio e posição geográfica estratégica mantém o estado competitivo para atrair ainda mais investimentos de grande porte.

Data centers de borda: a revolução invisível nas periferias

Mas o movimento não se restringe aos gigantes. O mercado de edge computing — data centers menores instalados o mais perto possível do usuário final — promete transformar a vida cotidiana dos cearenses.

Carlos Eduardo Sedeh, CEO da holding SAMM, explica que essa descentralização viabiliza carros autônomos, internet das coisas, sensorização urbana e cidades inteligentes. “Tudo isso a partir de data centers descentralizados”, frisa o executivo.

O Brasil deve registrar expansão simultânea: grandes empreendimentos no Pecém e pequenos centros espalhados pelo território, atendendo à explosão da economia digital, computação em nuvem e serviços de telecomunicações.

ZPE do Pecém: o diferencial jurídico que atrai capital

Sedeh destaca a Zona de Processamento e Exportação do Pecém como trunfo decisivo. “Criar uma ZPE numa área que carece de desenvolvimento e direcionar energia e esforços para trazer empresas é estratégia acertada. Não existe investimento dessa magnitude sem estabilidade jurídica e aporte governamental”, afirma.

O ambiente de negócios criado ali reduz riscos regulatórios e tributários, fator crítico para projetos de longo maturação e alto capital intensivo.

DE-CIX estuda levar interconexão premium a Fortaleza

O grupo DE-CIX, operador global de pontos de troca de tráfego, classifica o Brasil como seu mercado de crescimento mais acelerado em 2024. A empresa já atende mais de 100 clientes no país e lançou a primeira plataforma de interconexão de inteligência artificial nacional.

Com operações em São Paulo e Rio de Janeiro, a companhia avalia expandir para Fortaleza, que caminha para se tornar o segundo maior mercado brasileiro. O CEO Ivo Ivanov resume a estratégia: “Temos muita vontade de construir do Brasil para o Brasil, e não entregar serviços de fora.”

Soberania de dados: o alerta que não pode ser ignorado

Ivanov levanta uma questão sensível: com a multiplicação de data centers, dados de organizações e cidadãos brasileiros devem permanecer no país — não serem enviados para treinamento de modelos nos Estados Unidos ou na Europa. “É uma questão de soberania. Também é preciso criar ambiente de inovação com riscos mitigados”, completa.

O que observar daqui para frente

O cenário desenha três frentes de acompanhamento obrigatório para investidores e gestores: a velocidade de execução dos dez projetos hiperescala no Pecém, a capilaridade da rede de edge no interior do estado e a concretização da interconexão DE-CIX em Fortaleza. Cada uma delas reforça — ou testa — a tese de que o Ceará deixará de ser apenas consumidor de infraestrutura digital para se tornar plataforma de exportação de processamento para a América Latina e além.