As taxas dos títulos prefixados do Tesouro Direto abriram esta terça-feira (20) em queda acentuada, apagando quase toda a alta da véspera. O movimento pegou investidores de surpresa, já que o petróleo segue em alta no exterior — fator que costuma pressionar juros futuros para cima.
O que explica essa divergência? A resposta está nas novas pesquisas eleitorais divulgadas nas últimas horas, que alteraram drasticamente as apostas do mercado sobre o cenário fiscal nos próximos anos.
O choque nas taxas: números que impressionam
O Tesouro Prefixado 2029 liderou o recuo, com a taxa caindo de 12,15% para 11,88% na abertura — queda de 27 pontos-base em poucas horas. O Tesouro Prefixado 2026 acompanhou o movimento, recuando de 11,85% para 11,62%. Já o Tesouro IPCA+ 2035 viu o prêmio de inflação encolher de 5,92% para 5,78%.
Para quem acompanha o mercado de renda fixa, movimentos acima de 20 pontos-base em um único pregão são considerados agressivos. O volume negociado nas primeiras duas horas superou R$ 1,2 bilhão, sinalizando apetite real e não apenas ajuste técnico.
Por que as pesquisas moveram mais que o petróleo
O barril do Brent opera acima de US$ 93, alta de 1,8% na semana. Em condições normais, isso elevaria as expectativas de inflação e, consequentemente, os juros longos. Mas o mercado precificou um “prêmio de risco político” nas últimas semanas que agora está sendo desmontado.
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Essa reprecificação fez o dólar cair 0,9% frente ao real nas primeiras horas, aliviando a curva de juros futuros (DI) em todos os vértices. O DI jan/2027 recuou 32 pontos-base; o DI jan/2029, 28 pontos.
O impacto direto no seu bolso
Quem comprou prefixados na segunda-feira (19) no pico do estresse já vê marcação a mercado positiva superior a 2% em menos de 24 horas. Mas o movimento não beneficia apenas quem entrou ontem.
Investidores com posições em IPCA+ longo (2035, 2045, 2055) viram o valor de mercado subir entre 1,5% e 3,2% — ganho que, em muitos casos, supera o rendimento esperado de um ano inteiro. Quem está em CDB ou fundo DI, porém, não captura esse efeito: a marcação a mercado só existe para quem carrega o título público direto ou fundos que o replicam.
Cenários para os próximos pregões
Analistas ouvidos pela reportagem dividem-se em dois campos. O primeiro vê espaço para queda adicional de 15 a 20 pontos-base nos prefixados se as pesquisas da semana confirmarem a tendência. O segundo alerta para o risco de “comprar o boato”: se o cenário eleitoral se inverter novamente, a volatilidade pode devolver todo o ganho em dias.
O Comitê de Política Monetária (Copom) se reúne na próxima quarta-feira (28). A ata da última reunião já sinalizava que o ciclo de cortes pode ser interrompido se o fiscal não ancorar. Por isso, o mercado monitorará não apenas as urnas, mas também o relatório bimestral de receitas e despesas, previsto para o dia 22.
O que observar daqui pra frente
Três variáveis vão ditar o ritmo nos próximos dias: a consistência das pesquisas (duas ou três confirmando a mesma tendência reduzem o prêmio de risco), a reação do dólar ao fluxo externo (entradas acima de US$ 500 milhões/dia sustentam a queda de juros) e a comunicação do Banco Central na reunião do Copom. Quem tem estômago para volatilidade pode encontrar pontos de entrada atrativos nos prefixados 2029 e 2032. Quem prefere previsibilidade, o IPCA+ 2035 a 5,78% ainda oferece prêmio real histórico acima da média dos últimos cinco anos.
