A PPSA (Pré-Sal Petróleo) habilitou 36 companhias para o primeiro leilão de venda direta de gás natural da União à indústria, marcado para esta quinta-feira (24). É a estreia da estatal como vendedora direta ao consumidor final, rompendo o modelo onde a Petrobras era a única compradora do gás da União no pré-sal. A grande incógnita agora é se o volume ofertado terá fôlego para mexer nos contratos de longo prazo.
O certame oferece 1,1 milhão de metros cúbicos por dia — fatia modesta de 1,6% da oferta nacional de agosto. Ainda assim, o movimento sinaliza a quebra de um monopólio de fato na originação da molécula. Para o empresário industrial, a pergunta prática é: essa nova rota de suprimento chega competitiva na porta da fábrica?
Como funciona a divisão dos lotes e quem pode levar
A oferta foi fatiada em 110 lotes de 10 mil m³/dia, desenhados para cinco perfis industriais. A distribuição reflete o peso de cada setor no consumo térmico e como matéria-prima:
- Químico e petroquímico: 35 lotes (maior fatia);
- Siderurgia, metalurgia e mineração: 32 lotes;
- Cerâmico: 20 lotes;
- Fertilizantes nitrogenados: 13 lotes;
- Vidreiro: 10 lotes.
O lance mínimo para o prêmio — o “ágio” sobre a referência internacional — parte de US$ 1,80 por milhão de BTU (cerca de R$ 9), com passos de US$ 0,02. Vence quem oferecer o maior prêmio. A PPSA não divulgou os nomes dos habilitados, mas a diversidade setorial sugere apetite além dos usuais suspeitos.
A fórmula do preço: Henry Hub, câmbio e o “X” da questão
O contrato atrela o custo da molécula a 115% da média mensal do Henry Hub (referência EUA), convertido pelo câmbio médio do mês anterior à entrega. Sobre essa base, incide o prêmio ofertado no leilão. Na prática, o comprador assume a volatilidade externa e cambial, trocando a indexação ao petróleo (comum nos contratos legados) pela dinâmica do gás norte-americano.
Para a indústria exposta ao dólar, a conta pode fechar melhor que as alternativas atuais — sobretudo se o spread entre óleo e gás nos EUA se mantiver. Mas o frete até a fábrica fica por conta do comprador, o que desloca o custo logístico para o balanço final.
Entrega em Itaboraí: o gargalo logístico invisível
O gás sai no Complexo de Energias Boaventura, o antigo Comperj, em Itaboraí (RJ). Dali em diante, cada jogador contrata a capacidade de transporte nos gasodutos da malha da Transportadora Associada de Gás (TAG) ou da NTS. Quem tem planta longe do eixo Rio-São Paulo precisa colocar na ponta do lápis a tarifa de ship-or-pay e eventuais restrições de capacidade na malha.
Esse detalhe costuma separar o “preço no ponto de entrega” do “preço na queima”. Para unidades no Sul ou Nordeste, a adição do frete pode tornar a oferta da União menos atrativa que a de supridores regionais ou importadores de GNL.
O tabuleiro maior: Gas Release adiado e a briga pelo mercado
No mesmo dia da divulgação dos habilitados, a ANP postergou para 19 de novembro a audiência pública sobre o gas release — mecanismo da Lei do Gás que forçaria a Petrobras a devolver ao mercado parcelas do gás de seus sócios no pré-sal. A estatal comemorou o adiamento, alegando necessidade de debate mais profundo sobre impactos de curto a longo prazo.
O embate opõe o MME, que quer acelerar a dessverticalização, à Petrobras, que detém hoje cerca de 80% da comercialização nacional. O leilão da PPSA, embora pequeno, funciona como um piloto: testa apetite, precificação e logística fora do guarda-chuva da petroleira. Se der certo, a pressão por volumes maiores no gas release cresce.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar se o modelo escala: o prêmio médio efetivamente pago na quinta (sinal de quão “barato” o gás sai), a taxa de contratação dos 110 lotes (demanda real vs. especulação) e a capacidade da malha de escoar novos volumes sem gargalos. O próximo leilão da PPSA — e a definição das regras do gas release em novembro — dirão se a União virou, de fato, um player comercial relevante ou se permanece como vendedor marginal de um excedente pequeno.
