Economia

O segredo que ninguém conta: R$ 15 bi em dívidas podem sumir para microempresas

Presidente Lula anuncia sanção de lei que anula R$ 15 bi em dívidas de microempresas
Lula discursa em Juazeiro (BA) sobre perdão de dívidas de micro e pequenas empresas com a União

O presidente Lula anunciou a intenção de sancionar lei que anula cerca de R$ 15 bilhões em dívidas de micro e pequenas empresas com a União. A medida, revelada durante ato de campanha em Juazeiro (BA), pode destravar o crédito e permitir que milhares de empreendedores retomem atividades paralisadas pelo peso dos débitos. Mas o alcance real depende de detalhes que ainda não foram divulgados.

O que muda na prática para o pequeno empresário

A proposta mira o estoque de dívidas tributárias e não tributárias inscritas na dívida ativa da União. Hoje, muitas microempresas não conseguem certidão negativa, o que impede acesso a financiamentos, participação em licitações e até a emissão de notas fiscais em alguns municípios. A anulação automática — se confirmada nos termos anunciados — eliminaria esse entrave de uma só vez.

Dados do Sebrae mostram que o Brasil tem mais de 21 milhões de micro e pequenas empresas ativas. Dessas, estima-se que cerca de 30% possuam alguma pendência com a Receita Federal ou a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional. O volume de R$ 15 bilhões citado pelo presidente representa uma fração do passivo total, mas atinge justamente o segmento mais vulnerável.

Como a medida deve funcionar

Embora o anúncio não tenha detalhado o mecanismo jurídico, há três caminhos prováveis com base em experiências anteriores:

  • Remissão ampla: perdão total dos débitos elegíveis, sem exigência de adesão prévia
  • Programa de regularização: anulação condicionada à adesão em prazo definido, com regras de transição
  • Medida Provisória: efeito imediato, mas que precisa de aprovação do Congresso em até 120 dias

A definição do formato impacta diretamente o caixa do Tesouro e a segurança jurídica dos beneficiados. Um decreto isolado, por exemplo, poderia ser questionado no STF por vício de iniciativa — já que matéria tributária exige lei formal.

Ponte, transposição e o pacote de infraestrutura

O ato ocorreu sobre a ponte Presidente Eurico Gaspar Dutra, símbolo da integração entre Bahia e Pernambuco. Lula defendeu a construção de uma segunda travessia, mas condicionou a obra à existência de projeto técnico pronto. “Para fazer uma segunda ponte é preciso ter projeto. Se não tiver projeto, não tem dinheiro”, afirmou.

Outro eixo destacado foi a transposição do Rio São Francisco, classificada pelo presidente como “a maior obra hídrica mais importante que está sendo feita hoje no mundo”. O projeto beneficia cerca de 15 milhões de pessoas no semiárido nordestino, segundo números do governo federal.

Educação e atração de investimentos

Na frente educacional, Lula citou a expansão de universidades e institutos federais na região. O Nordeste recebeu 14 novos campi de institutos federais entre 2023 e 2024, além da criação de 5 universidades federais nos últimos dois anos. A estratégia visa formar mão de obra qualificada para os polos industriais que vêm se instalando nos estados de Pernambuco, Bahia, Ceará e Rio Grande do Norte.

O presidente também mencionou o marco de 23 anos do Bolsa Família, programa que atende hoje mais de 21 milhões de famílias em todo o país, com concentração significativa no Nordeste.

O que observar nos próximos passos

A tramitação da medida de anulação de dívidas deve ser o termômetro político das próximas semanas. Se enviada como Medida Provisória, entra em vigor imediatamente, mas precisa de maioria no Congresso para virar lei. Se for projeto de lei, o prazo se alonga, mas a segurança jurídica aumenta.

Para o empresário, a recomendação prática é: não pare de pagar tributos correntes à espera da anulação. O benefício, se aprovado, deve recair apenas sobre dívidas já inscritas até a data de publicação da norma. Manha a regularidade fiscal garante acesso a eventuais programas de transição e evita novas inscrições em dívida ativa.

Outro ponto de atenção: o Ministério da Fazenda ainda não se manifestou sobre o impacto fiscal da medida. A equipe econômica costuma condicionar renúncias de receita a compensações orçamentárias — o que pode alterar o desenho final da proposta.