A B3 decidiu agir para reter o financiamento de projetos minerais em estágio inicial que hoje migram em massa para bolsas no Canadá e na Austrália. A diretora de Listagem, Flávia Mouta, admitiu publicamente a existência de um “gap” no atendimento às chamadas junior mining companies durante evento da ADIMB em São Paulo. A consequência direta é a perda de soberania sobre o funding de minerais críticos como lítio, terras raras e cobre.
Mais de 100 empresas com ativos no Brasil estão listadas lá fora, segundo levantamento setorial entregue à CVM em junho. O dinheiro da exploração brasileira está pagando salários e infraestrutura em Toronto e Sydney.
Por que Toronto e Sydney vencem a disputa
O modelo estrangeiro resolve o maior dilema da mineração júnior: como captar risco sem receita. A TSX Venture Exchange (TSXV) canadense e a Australian Securities Exchange (ASX) possuem regras feitas sob medida para quem só tem furos de sondagem e relatórios geológicos.
No Canadá, o mecanismo de flow-through shares permite transferir deduções fiscais da empresa para o investidor. Na Austrália, o Junior Minerals Exploration Incentive (ativo até junho de 2025) funcionava de forma semelhante, além de créditos de P&D ainda vigentes. Resultado: o capital entra em fases de prova de conceito, diluindo o risco para quem aporta.
- Viridis Mining and Minerals (ASX): projeto Colossus (terras raras, MG).
- St George Mining (ASX): depósito de terras raras e nióbio em Araxá (MG).
- Lithium Ionic (TSXV): projeto Bandeira (lítio, MG).
Esses casos ilustram a dinâmica: ativos brasileiros, capital estrangeiro, liquidez em moeda forte.
As alternativas que a B3 coloca na mesa
Flávia Mouta sinalizou três frentes de atuação, sem prometer datas ou novos instrumentos regulatórios imediatos. A primeira é o benchmarking: a bolsa está estudando a fundo os modelos da TSXV e da ASX para replicar o que funcione no arcabouço local.
A segunda frente explora a infraestrutura já existente. A B3 lembra que não só de equity vive o financiamento: há mercado de dívida corporativa robusto e a estrutura de BDRs (Brazilian Depositary Receipts) para trazer a liquidez da ação estrangeira para o investidor local sem sair do país.
A terceira depende do Legislativo. O Projeto de Lei 4.975/2023, da deputada Laura Carneiro (PSD-RJ), propõe a criação das APEM — Ações de Pesquisa Mineral. A ideia é copiar o incentivo fiscal canadense: quem comprar esses papéis deduz o valor da base do Imposto de Renda, desde que os recursos financiem exclusivamente a etapa de pesquisa autorizada pela ANM.
O entrave político e o que muda no radar
O PL 4.975 parou na Comissão de Minas e Energia da Câmara, aguardando parecer do relator Sidney Leite (PSD-AM). Sem previsão de votação, o incentivo tributário — peça-chave para igualar o jogo — segue no papel. Enquanto isso, a B3 tenta construir pontes operacionais para não perder a próxima leva de IPOs do setor.
O movimento ganha urgência com a corrida global por minerais críticos. O Brasil tem a geologia, mas precisa prover o venture capital mineral que hoje fala inglês e paga em dólar canadense ou australiano.
O que observar nos próximos meses
Fique atento à tramitação do PL 4.975: sua aprovação criaria o primeiro instrumento fiscal desenhado para o risco exploratório no Brasil. Paralelamente, monitore editais ou consultas públicas da B3 sobre segmentos de listagem simplificados para pré-operacionais. A sinalização de Mouta sugere que a bolsa pode lançar um “Novo Mercado Júnior” ou adaptar o Bovespa Mais com regras setoriais específicas — mas, até anúncio oficial, é apenas hipótese de trabalho.
