Economia

Americanas dispara 25% após fim da RJ: a vitória e o alerta crucial

Gráfico de ações das Americanas mostrando alta de 25% após fim da recuperação judicial
Ações da Americanas disparam 25% no pregão após encerramento da recuperação judicial de quase dois anos.

As ações das Lojas Americanas fecharam o pregão de terça-feira (20) com alta de 20,60%, a R$ 7,20, após atingirem 25% na máxima do dia. O gatilho foi a decisão judicial da noite anterior que encerrou a recuperação judicial da varejista, quase dois anos após o pedido protocolado em janeiro de 2023.

Mas, antes de comemorar, investidores precisam entender: sair da recuperação não é sinônimo de empresa recuperada. O mercado aplaudiu, mas os riscos estruturais permanecem no radar.

O gatilho imediato: decisão judicial e reação do mercado

O juiz Arthur Eduardo Magalhães Ferreira, do Rio de Janeiro, decretou o fim do processo ao considerar cumpridas as obrigações do plano com vencimento até dois anos após a homologação, em fevereiro de 2024. A notícia injetou otimismo imediato nos papéis AMER3.

O movimento não foi isolado. Magazine Luiza subiu 12% e Lojas Renner avançou 4% em sessão de alta do Ibovespa (+1%) e queda dos juros futuros. O contrato DI para jan/2028 recuou 14 pontos-base, para 12,750%, beneficiando todo o varejo discricionário.

O que os analistas estão vendo (e o que ignoram)

Para Alexandre Pletes, head de renda variável da Faz Capital, a decisão valida a capacidade de execução do grupo controlador. “O mercado vê com bons olhos. O grupo mostrou resiliência para ajustar os problemas”, afirma.

Gabriel Magno, da AW Capital, destaca o duplo benefício: fim da incerteza jurídica mais cenário de Selic mais baixa. Ricardo Pompermaier, da Davos Investimentos, porém, injeta realismo: “Sair da RJ não significa que a empresa está recuperada. O caminho para retomada maior ainda é longo. Precisa melhorar operação, rentabilidade e gerar caixa”.

O fantasma dos bondholders e o risco de falência

O encerramento não calou os credores. O próprio magistrado alertou: eles ainda podem apontar descumprimentos ou pedir a falência. A principal resistência vem dos bondholders (títulos em moeda estrangeira).

  • Eles alegam conversão não autorizada de dólares para reais;
  • Resultado: pagamentos inferiores ao contratado;
  • Disputa judicial deve persistir nos próximos trimestres.

Números da gestão: a narrativa do CEO

Em nota, o CEO Fernando Soares apresentou indicadores dos últimos dois anos para sustentar a tese de virada operacional:

  • Ganho operacional adicional de R$ 500 milhões;
  • Crescimento de 9,3% no 1º semestre de 2026;
  • Alta de 10,3% na receita bruta por metro quadrado no mesmo período.

“A Americanas sai mais forte e com fôlego renovado”, disse Soares. A dívida original declarada na RJ era de cerca de R$ 43 bilhões, distribuídos entre mais de 16,3 mil credores, exposta após inconsistências contábeis de R$ 20 bilhões envolvendo verbas de propaganda cooperada (VPC).

O que observar daqui para frente

O curto prazo deve ser ditado pela dinâmica de juros e fluxo comprador no varejo. O médio prazo, porém, depende de três variáveis concretas: evolução da geração de caixa livre, desfecho das ações dos bondholders e prova de que a rentabilidade por metro quadrado é sustentável sem depender de eventos não recorrentes. Quem comprou na euforia de terça-feira carrega agora o ônus de provar que a tese de “empresa recuperada” se sustenta no balanço, não apenas na sentença.