O confronto televisionado entre Lula e Flávio Bolsonaro expôs um silêncio ensurdecedor: nenhum dos dois apresentou um plano econômico crível para 2027. O eleitor segue sem saber como o próximo governo vai enfrentar a dívida pública que já supera 75% do PIB.
No domingo (18), a Band transmitiu um embate que oscilou entre agressões pessoais e generalidades. O primeiro bloco resumiu-se a acusações mútuas — Flávio explorando investigações contra o filho do presidente, Lula remetendo a casos do clã Bolsonaro. Nenhuma proposta concreta emergiu.
O que estava em jogo e não foi dito
O Brasil cresceu acima de 3% em 2023 e 2024, mas o ciclo se esgota. O Banco Central projeta expansão próxima de 1% no ano que vem, com a Selic a 13,75% freando consumo e investimento. Quem assumir em janeiro herdará déficit primário estimado em 0,4% do PIB e uma trajetória de endividamento que exige superávits sustentados.
Flávio Bolsonaro mencionou a criação de um “Ministério da Prosperidade” e prometeu corte de privilégios, sem detalhar fontes de receita ou metas fiscais. Lula limitou-se a citar o Desenrola e conquistas de mandatos anteriores, sem explicar como reverterá o rombo atual.
Impacto direto no caixa das empresas
A indefinição já cobra preço. Juros reais elevados encarecem capital de giro, alongam prazos de financiamento e inibem expansão. O risco Brasil segue acima de 200 pontos-base, pressionando câmbio e custo de insumos importados.
- Crédito: spread bancário médio acima de 25% a.a. para PMEs
- Investimento: formação bruta de capital fixo estagnada desde meados de 2024
- Câmbio: dólar acima de R$ 5,40 reduz competitividade de importadores
Sem ancoragem fiscal clara, o cenário base mantém Selic restritiva até o segundo semestre de 2027. Qualquer ruído político pode alongar esse horizonte.
Dois históricos, mesma incerteza
O PT entregou superávits primários de 3% a 4% do PIB entre 2003 e 2010, mas o terceiro mandato acumula déficits sucessivos. A gestão Bolsonaro-Guedes fechou 2022 com superávit de 0,5%, contabilizando postergação de precatórios e dívidas com estados — artifícios que não se repetem.
O ministro Fernando Haddad tentou recompor receitas em 2023, mas a meta fiscal flexibilizada em 2024 erosionou credibilidade. Do outro lado, a equipe de Flávio acenou com corte de “centenas de bilhões” sem prazo, detalhamento ou demonstração de viabilidade política no Congresso.
O que observar daqui para frente
O próximo presidente terá maioria frágil no Legislativo e menos de seis meses para enviar o PLDO 2028 com metas críveis. Três sinais valerão mais que discursos:
- Nome do futuro ministro da Fazenda e seu grau de autonomia
- Primeira medida provisória ou projeto de lei com impacto fiscal quantificado
- Posição sobre a regra de meta de inflação e independência do Banco Central
A realidade macroeconômica não espera posse. Quem vencer precisará negociar ajuste gradual, mas aprovado com celeridade — sob pena de ver prêmios de risco subirem ainda mais, jogando a recuperação para além de 2028.
