Investidores estão correndo para comprar proteção contra calote de gigantes da tecnologia, fazendo o custo desse “seguro” disparar para níveis históricos. O movimento sinaliza um nervosismo crescente com a montanha de dívida usada para financiar a revolução da inteligência artificial. A pergunta que fica: o mercado está apenas cauteloso ou antecipando uma ruptura?
O salto nos números que ninguém ignora
O volume semanal de swaps de inadimplência de crédito (CDS) atrelados a nomes como Oracle, SpaceX, Alphabet, Amazon, Meta, Broadcom e Nvidia saltou para uma média de US$ 9 bilhões em setembro. Em julho, mal passava de US$ 2 bilhões, segundo dados do Morgan Stanley.
Para colocar em perspectiva: o total negociado em índices de CDS de empresas americanas apenas neste ano já supera todo o volume de 2023, de acordo com a Bloomberg. Não é apenas volume; o preço da proteção — o spread — atingiu recordes recentes.
Por que até a Microsoft entrou na mira
O susto não se restringe a apostas arriscadas. O custo para segurar a dívida da Microsoft, considerada porto seguro, também subiu forte. O mesmo ocorreu com Meta (108 pontos-base) e Nvidia (101 pontos-base), ambos em máximas históricas.
Segundo Manish Kabra, do Société Générale, os CDS viraram o termômetro principal do sentimento sobre o financiamento da nuvem e da IA. “O mercado está cada vez mais concentrado em duas coisas: CDS e fluxo de caixa livre”, resume.
A conta da infraestrutura: US$ 466 bi em dívida nova
A raiz do problema está na velocidade da alavancagem. Empresas do setor emitiram cerca de US$ 466 bilhões em títulos só em 2024 — contra US$ 101 bilhões no mesmo período do ano passado, conforme o Morgan Stanley. O dinheiro vai para data centers e chips.
Embora o ritmo de captação tenha esfriado desde o pico de junho, a concentração de grandes devedores expostos aos mesmos riscos mantém a demanda por proteção aquecida. Jim Caron, do Morgan Stanley Investment Management, define a lógica: “Em um mercado onde o risco está muito concentrado, o que você quer comprar são CDS”.
O “seguro barato” que seduz gestores de ações
Tradicionalmente restritos a fundos de crédito, esses derivativos migraram para carteiras de múltiplos ativos e fundos de ações. A razão é simples: proteção via opções de venda (puts) em ações voláteis sai caro demais.
- Investidores em bonds compram CDS para dormir tranquilos;
- Gestores de ações e multiativos usam o instrumento como hedge barato para posições em tech;
- Especuladores apostam no alargamento dos spreads.
“Proteger ativos muito voláteis no mercado de ações é extremamente difícil e caro”, reforça Kabra.
CoreWeave: o “elo mais fraco” que assusta o sistema
O epicentro da tensão tem nome: CoreWeave. A “neocloud” especializada em IA vê seus CDS de cinco anos negociados a 1.090 pontos-base. Na prática, proteger US$ 10 milhões exige US$ 1,82 milhão antecipados mais parcelas trimestrais de US$ 125 mil.
Para Gavan Nolan, da S&P Global, acima de 1.000 pontos-base a precificação passa a embutir a expectativa de recuperação baixa do principal. Robert Dafforn, da Polus Capital, vai direto ao ponto: o endividamento do setor é “muito elevado” e a interdependência financeira significa que “o elo mais fraco começará, de fato, a deteriorar o sistema”.
O que observar daqui para frente
Os spreads de Oracle (322 pontos-base) e SpaceX (226 pontos-base) também dobraram em meses, mostrando que o contágio atinge até estruturas complexas e de alta qualidade. O monitoramento do fluxo de caixa livre dessas companhias — e a capacidade de converter investimentos bilionários em receita recorrente — será o divisor de águas. Se a geração de caixa decepcionar, a atual corrida por CDS pode ser apenas o prólogo de um ajuste bem mais brusco no custo de capital do setor.
