O Japão está a poucos meses de esgotar suas reservas de ítrio, metal indispensável para a fabricação de semicondutores, turbinas de aviões e veículos. Tóquio acionou Washington para forçar Pequim a liberar as exportações, mas o relógio corre contra a indústria global. Se nada mudar, a escassez atinge em cheio a cadeia de defesa e tecnologia ainda este ano.
O metal que travou a engrenagem global
O ítrio é resistente ao calor e insubstituível no revestimento de motores a jato e nas câmaras de plasma usadas para gravar chips avançados. Sem ele, linhas de produção de semicondutores e de defesa param. A dependência é total: a China controla da mineração ao processamento e transformou esse domínio em alavanca geopolítica.
O choque de preços expõe a fragilidade. Fora da China, o óxido de ítrio saltou para US$ 1.150 o quilo — alta de 179 vezes em dois anos. Dentro do território chinês, o mesmo quilo custa US$ 9. A arbitragem brutal obriga compradores ocidentais a pagar prêmios exorbitantes ou ficar sem matéria-prima.
- Semicondutores: câmaras de corrosão por plasma para litografia avançada.
- Aviação: revestimento térmico de turbinas de motores a jato.
- Defesa: componentes críticos de mísseis e sistemas de guidance.
A geopolítica por trás da escassez
O aperto chinês não é apenas comercial. Pequim retaliou declarações da primeira-ministra Sanae Takaichi sobre o risco existencial de um conflito em Taiwan. Em resposta, restringiu as vendas ao Japão justamente quando a trégua comercial de outubro previa flexibilização. Autoridades japonesas descrevem o cenário como “grave”: os estoques estão no fim e a capacidade de racionamento chegou ao limite.
Em Washington, o Ministério da Economia japonês e o Departamento de Energia dos EUA montaram um “grupo de resposta rápida” para minerais críticos. A reunião ocorreu semanas antes do encontro entre Trump e Xi Jinping. O objetivo duplo: mostrar a urgência e fazer empresas americanas afetadas pressionarem a Casa Branca a cobrar Pequim.
O xadrez comercial: aviões por minerais
Os EUA alegam que a China cumpre apenas dois terços dos compromissos de fornecimento feitos em maio. Para o Japão, a cota liberada mal cobre o mínimo operacional. A retaliação americana já começou: Washington condiciona a exportação de motores a jato para o C919 — o primeiro avião comercial chinês — à liberação de ítrio para as turbinas.
O impasse travou também a compra de 200 aviões da Boeing acordada na visita de Trump a Pequim. Erin Browne, do Tesouro americano, foi direta: “Para produzir aeronaves, são necessárias terras raras. Tudo está sob o mesmo guarda-chuva”. O acesso confiável a esses minerais foi classificado como essencial para a segurança econômica e nacional dos Estados Unidos.
O que observar daqui para frente
Para Gracelin Baskaran, do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, o pânico japonês é justificado e o país “terá de sofrer por enquanto”. A janela de ação se fecha no fim do ano. Três movimentos definem o desfecho:
- Pressão diplomática coordenada: se EUA e Japão alinharem sanções setoriais, Pequim pode ceder para preservar o mercado de aviões.
- Estoques estratégicos: empresas ocidentais correm para estocar fora da influência chinesa, mas a logística leva meses.
- Alternativas tecnológicas: pesquisas para reduzir ou eliminar o ítrio em revestimentos avançam, mas não chegam a escala industrial antes de 2026.
O próximo relatório do “grupo de resposta rápida” e a reunião de ministros do G7 sobre minerais críticos, prevista para o próximo trimestre, serão os termômetros se o Ocidente consegue virar o jogo ou se a indústria global entrará em racionamento forçado em 2025.
