Tecnologia

IA nas eleições: o laboratório que assusta o mundo

Ilustração de urna eleitoral digital com algoritmos de IA gerando posts políticos sintéticos em Israel
Israel testa IA em escala nas eleições de 2026: 14% do conteúdo político já é sintético

Israel transformou sua eleição legislativa de 2026 no maior teste real de inteligência artificial na política moderna. Mais de 1.800 posts sintéticos foram publicados por um único partido em poucos meses. O que acontece lá define o roteiro para as próximas disputas globais.

O volume que assusta os pesquisadores

O projeto Ze Be AI, da Universidade Aberta de Israel, monitorou 44 mil publicações políticas desde julho. O diagnóstico: 14% de todo o material já carrega DNA artificial. O Likud, partido do premiê Benjamin Netanyahu, responde por um quarto desse volume — 1.800 peças até meados de outubro.

Partidos menores exibem proporções ainda maiores de conteúdo sintético. Mas é a máquina do Likud que dita a escala industrial da operação. Em segundo lugar aparecem os Democratas (esquerda), seguidos pelo Yashar, de Gadi Eisenkot, com volumes bem menores.

Deepfakes como arma de persuasão

O caso mais viral dura 19 segundos. Eisenkor corre em câmera lenta para abraçar o filho — morto na guerra de 2023 — mas desvia e cai nos braços de Mansour Abbas, líder árabe. O vídeo, postado na conta de Netanyahu, passou de 1 milhão de visualizações. O objetivo: ativar o viés anti-árabe do eleitorado de direita.

Outros exemplos beiram o surreal:

  • Yair Golan (Democratas) troca de farda para camiseta de campanha e terno a cada giro de um ventilador de teto.
  • Bezalel Smotrich (Finanças) mostra a procuradora-geral e juízes da Suprema Corte sendo detidos em protesto.
  • Itamar Ben-Gvir (Segurança Nacional) exibe palestinos em esteira rumo a campo de concentração — classificado como “abominável” pela chancelaria alemã.

A regulação que não existe

Em julho, o Comitê Central de Eleições exigiu rótulo em conteúdo manipulado por IA. Fora isso, vácuo total. “Não há Lei de IA, nem Lei de Serviços Digitais como na Europa; a legislação de privacidade está defasada”, resume Anat Ben-David, líder do Ze Be AI. “Usos impossíveis na Europa viram rotina aqui.”

A autoridade já ordenou a remoção de um vídeo de Smotrich sem identificação. Mas a fiscalização corre atrás da enxurrada.

Ligações que parecem humanas — e não dizem quem paga

Nitsan Yasur, da Associação de Internet de Israel, gravou uma chamada de quatro minutos. A voz se apresenta como “Danielle”, pesquisadora de instituto eleitoral. Questionada, admite: “não há nenhum agente humano na linha”. Perguntado cinco vezes quem contratou, o bot ignora e insiste na intenção de voto.

“Não precisa mais de gente real com limite de tempo e capacidade”, alerta Tehilla Shwartz Altshuler, do Instituto para a Democracia de Israel. A tecnologia escalou o microtargeting telefônico a custo marginal quase zero.

O novo alvo: o que o chatbot responde

Cerca de 25% dos israelenses considerariam consultar IA para decidir o voto, diz a Associação de Internet. Nasce a Generative Engine Optimization (GEO): plantar conteúdo na web para que LLMs o absorvam e repitam narrativas favoráveis.

O próprio governo já pagou empresa americana para criar sites que “alimentassem” modelos com viés pró-Netanyahu. “As mesmas indústrias agora viram para dentro, influenciar a eleição doméstica”, observa Shwartz Altshuler.

Exército de bots infla engajamento

A Scooper detectou mais de mil novas contas por dia seguindo Netanyahu no X logo após criadas. 70% dos perfis que compartilham seus posts estão fora de Israel e exibem padrão bot: postagens ininterruptas, criação recente, sem foto. O FakeReporter achou rede similar ligada a Ben-Gvir (negada pelo gabinete), com cem contas usando identidades sintéticas para atacar rivais.

IA barateou e simplificou a operação de astroturfing. O que antes exigia fazendas de cliques humanos agora roda em scripts.

O que observar daqui para frente

Israel funciona como sandbox global: adoção precoce, regulação frouxa, polarização alta. Três variáveis que antecipam o que virá no Brasil, EUA e Europa nos próximos ciclos:

  • Chamadas de voz indistinguíveis em escala milhões/dia nas duas semanas finais.
  • Otimização para chatbots (GEO) virando item de orçamento de campanha.
  • Detecção tardia: a velocidade de geração supera a de verificação; o estrago reputacional ocorre antes do fact-check.

Para investidores e estrategistas, o sinal é claro: a infraestrutura de verdade sintética virou ativo político. Quem controla o pipeline — geração, distribuição, otimização para LLMs — dita a narrativa. A eleição de 27 de outubro não decide apenas o próximo premiê; ela precifica o custo da realidade manipulável em 2026.