Dois alunos de Apucarana criaram um protótipo de silo com visor lateral que elimina a necessidade de subir na estrutura para checar o nível de ração. A solução nasceu dentro da sala de aula, mas endereça um problema que mata centenas de trabalhadores por ano no Brasil. O que começou com uma garrafa PET pode mudar a rotina de mais de 600 silos apenas na região.
O segredo está na simplicidade: um janela transparente na lateral do silo permite monitorar o estoque do chão. Mas os números por trás dessa ideia revelam uma emergência silenciosa no agronegócio.
O problema invisível nos aviários brasileiros
Apucarana concentra mais de 300 aviários e uma frota superior a 600 silos de armazenamento. Na maioria das propriedades, o controle de ração ainda exige que o operador suba no topo da estrutura — uma escada vertical, sem proteção lateral, exposta a vento, chuva e fadiga.
O resultado aparece nos relatórios oficiais: entre 2021 e 2025, 394 pessoas morreram em acidentes ligados a silos e estruturas de armazenagem no país. Quase 40% das vítimas foram soterradas; 18,7% caíram de altura. Cada subida desnecessária é uma roleta-russa.
Como dois alunos transformaram risco em solução
Lucas de Andrade Campos (12 anos) e Enzo de Almeida Gomes (13 anos) estudam no Colégio Estadual Cívico-Militar Heitor Furtado de Alencar. Durante entrevistas com o granjeiro Egídio Wilxenski, associado da Cocari, descobriram que a falta de visibilidade do estoque gera perdas estimadas em até 15% por manejo inadequado — percentual ainda a ser validado em escala real.
Sob orientação da professora Silvia Wilxenski, a dupla desenhou o projeto “Silo inteligente para aviário com visor de nível para monitoramento de conversão alimentar”. O protótipo funcional usou uma garrafa PET para simular o fluxo de grãos e testar a posição ideal do visor. O modelo permitiu acompanhar o deslocamento da ração em tempo real, validando o conceito antes de qualquer investimento em metal.
- Segurança: elimina a subida no silo para verificação visual.
- Controle: leitura instantânea do nível de ração do solo.
- Eficiência: dados para cálculo de conversão alimentar (consumo vs. ganho de peso).
- Economia: potencial redução de desperdício, desabastecimento e acúmulo prolongado.
Da garrafa PET ao teste real: próximos passos
A segunda fase do projeto começa neste mês de outubro. Os estudantes farão visitas técnicas a cooperativas para mapear diferentes tipologias de silos, conversar com engenheiros e avaliar a adaptação do visor em chapas galvanizadas — o material padrão do mercado. O objetivo: definir especificações de instalação, vedação e durabilidade sob intempéries.
O trabalho já passou pelo crivo da 5ª Feira Científica do Núcleo de Altas Habilidades/Superdotação (FENAAH/S), em Foz do Iguaçu. Foram 867 inscrições; 200 projetos selecionados. O tema da edição — “Onde a curiosidade se transforma em descoberta” — resume a metodologia: problema real, hipótese, protótipo, validação.
O que observar daqui para frente
Se a viabilidade técnica se confirmar, a inovação tem caminho direto para cooperativas e integradoras que buscam reduzir passivos trabalhistas e melhorar índices de conversão alimentar. O monitoramento contínuo do estoque também abre portas para automação futura: sensores de nível, alertas de reposição e integração com sistemas de gestão de granja.
Para investidores e gestores do setor, o sinal é claro: soluções de baixo custo e alto impacto em segurança vêm da base — e podem escalar rápido quando dialogam com a dor real do produtor. Acompanhe as visitas de campo de outubro; elas ditarão o cronograma de um possível piloto comercial.
