Economia

ETFs explodem 172% no Brasil: o segredo por trás da fuga dos fundos tradicionais…

Gráfico de barras mostra crescimento de 172% dos ETFs no Brasil, com destaque para renda fixa multiplicando por 7
ETFs brasileiros saltam de R$ 50,3 bi para R$ 136,7 bi em 19 meses, impulsionados pela renda fixa

O patrimônio dos ETFs brasileiros saltou de R$ 50,3 bilhões para R$ 136,7 bilhões em apenas 19 meses, uma alta de 172% que coloca em xeque o domínio dos fundos de gestão ativa. O motor desse crescimento não está nas ações, mas na renda fixa — categoria que sozinha multiplicou seu tamanho por sete no período.

Em agosto de 2026, os ETFs de renda fixa chegaram a R$ 68 bilhões, ultrapassando momentaneamente os de renda variável. A liderança durou pouco: em setembro, os fundos de ações reassumiram a ponta com R$ 68,7 bilhões. A disputa sinaliza uma mudança estrutural no apetite do investidor local.

Por que o custo baixo virou arma decisiva

Com a Selic em 13,75% ao ano, a renda fixa tradicional permanece atraente. Nesse cenário, fundos ativos precisam entregar alpha suficiente para cobrar taxas de administração e, muitas vezes, performance. Os ETFs, por replicarem índices passivamente, operam com custos drasticamente menores.

Para Danilo Jusan, reitor do Ibmec-RJ, a diferença de custo é o principal vetor da migração. “Taxas de administração e performance corroem o retorno líquido do cotista. No modelo de índice, essa fricção é mínima”, explica. A transparência — o investidor sabe exatamente quais ativos compõem a carteira — reforça o argumento.

A vantagem tributária que ninguém comenta

Nos ETFs de renda fixa, a alíquota de Imposto de Renda segue a tabela regressiva padrão (25% até 180 dias, 20% entre 181 e 720 dias, 15% acima de 720 dias). A diferença crucial: não existe come-cotas nem IOF. Em fundos tradicionais, o come-cotas antecipa o imposto a cada seis meses, reduzindo o poder dos juros compostos.

Já nos ETFs de renda variável, a tributação é de 15% sobre o ganho líquido na venda (20% no day trade), apurada e paga pelo próprio investidor via Darf. A ausência de retenção na fonte dá controle de fluxo de caixa ao aplicador.

  • Renda fixa: IR regressivo sem come-cotas nem IOF
  • Renda variável: 15% sobre ganho de capital (20% day trade)
  • Controle: Investidor gere o momento do pagamento

O pequeno investidor descobriu a Bolsa

O número de contas com posição em ETFs saltou 74% no mesmo intervalo: de 1,04 milhão para 1,81 milhão. Na gestora Investo, a base de cotistas pulou de 42 mil para mais de 300 mil em pouco mais de três anos. Cauê Mançanares, CEO da casa, afirma que o crescimento é estrutural — mantém-se mesmo em meses de queda da Bolsa.

O perfil predominante hoje é o de investidores de menor tíquete, que usam ETFs para montar carteiras diversificadas com poucos cliques. Antes, esse público ficava restrito a poupança, CDBs de banco ou fundos de varejo com taxas elevadas.

O abismo em relação aos Estados Unidos

Apesar do ritmo acelerado, os ETFs brasileiros ainda somam apenas 1% do patrimônio da indústria de fundos local (R$ 136,7 bi contra R$ 11,53 tri). Nos EUA, são 5.590 produtos com US$ 15,74 trilhões — o equivalente a R$ 81 trilhões. O Brasil tem 225 ETFs, contra 115 no início de 2025; ainda assim, representa 4% da oferta americana.

Jusan atribui a diferença à cultura: o investidor brasileiro nasceu acostumado ao CDI e à renda fixa bancária. O americano cresce comprando índices amplos como S&P 500. A queda futura dos juros, contudo, pode acelerar a busca por alternativas no Brasil.

ETFs ativos chegam devagar, mas chegam

A CVM colocou a regulamentação de ETFs de gestão ativa na agenda de 2026, com consulta pública prevista. Enquanto a norma não sai, a J.P. Morgan Asset Management já lançou o JTEK39 — seu segundo ETF ativo na B3 — usando uma isenção pontual. No exterior, essa categoria já é consolidada.

Para Mançanares, o maior entrave segue sendo a falta de conhecimento do produto e a preferência dos bancos por distribuir fundos próprios. “Enquanto o gerente ganhar mais vendendo o fundo da casa, o ETF fica em segundo plano”, resume.

O que observar daqui para frente

Três variáveis ditam o próximo capítulo: a velocidade de queda da Selic, a aprovação do marco regulatório dos ETFs ativos e a capacidade das corretoras independentes de educar o varejo. Se os juros caírem, a pressão por retorno real empurrará mais capital para Bolsa — e os ETFs, pela estrutura de custo e tributação, estão posicionados para capturar essa migração. Acompanhe a agenda da CVM e o fluxo de novos lançamentos na B3: eles dirão se o crescimento atual é surto ou nova normalidade.