A Cemig desenvolveu uma inteligência artificial própria que multiplicou por dez a fiscalização de reparos na rede elétrica, flagrando fraudes e erros graves enquanto o técnico ainda está no local. O sistema, batizado de EnergyGPT, já sugeriu multas de R$ 63 mil a terceirizadas e evitou cortes de luz indevidos em minutos. Mas a economia real vai muito além das punições.
Como uma estatal de Minas Gerais conseguiu construir um “ChatGPT da energia” mais barato e preciso que os gigantes do Vale do Silício? A resposta está na decisão de não comprar prateleira, mas sim treinar um modelo sob medida para o português e para a regulação da Aneel.
O fim da fiscalização por amostragem
Até 2023, a Cemig auditava apenas 5,3% dos laudos diários enviados por empreiteiras — cerca de 500 a 600 por gerência. O resto passava na “boa-fé”. Com o EnergyGPT, a cobertura saltou para 51%, com 83% de concordância com analistas humanos seniores.
O fluxo é cirúrgico: o técnico envia foto, GPS e horário. Em dois ou três minutos, a IA cruza tudo com a base cadastral e devolve uma nota de risco. Se houver divergência, o analista liga para o eletricista antes que ele saia do poste.
- Caso real 1: Técnico “troca” poste em 2 minutos, mas foto foi tirada a quilômetros do local. IA reprova na hora.
- Caso real 2: Corte de luz por dívida. Morador mostra comprovante, mas valor não bate (conta errada). IA alerta, técnico volta, luz mantida, segunda visita evitada.
- Efeito colateral: A IA também pega erros da própria Cemig, como endereços cadastrados errado nas ordens de serviço.
Por que não usar ChatGPT ou Gemini?
A resposta curta: custo e contexto. Modelos generalistas cobram, em média, R$ 1,10 por análise. O EnergyGPT roda entre R$ 0,07 e R$ 0,10. A diferença está no tamanho: o modelo da Cemig tem 10 a 20 bilhões de parâmetros — enxuto, sem saber receitas de bolo ou história universal.
Nos testes internos, a acurácia em normas brasileiras (Aneel, ONS, legislação setorial) chega a 90%. As big techs param nos 70%. “Na medicina, erro mata. No setor elétrico, erro incendeia ou apaga cidades”, resume José Paulo Ramos Fernandes, gestor de inovação da estatal.
Houve um detalhe técnico crucial: como o EnergyGPT ainda não “enxerga” imagens, a foto do poste é processada pelo Gemini (Google). A IA mineira entra em seguida para interpretar a imagem sob as regras do setor. Soberania de decisão, olhos emprestados.
De chatbot a botão invisível: os próximos passos
Hoje, 1.100 colaboradores têm acesso e 300 usam semanalmente. A meta da diretoria não é substituir planejadores, mas tirar o atrito do dia a dia. O roadmap prevê três ondas:
- API aberta: O técnico valida a foto direto no app de segurança do trabalho, sem abrir chat.
- Atendimento por voz: Cliente fala, IA transcreve, responde em áudio e resolve na primeira chamada.
- Agentes autônomos: Sistemas que leem as telas internas e sugerem ações sem serem provocados — decisões críticas, porém, seguem humanas.
Tudo depende da renovação do contrato com o CEIA-UFG (parceiro acadêmico), que consumiu R$ 26 milhões e um cluster Nvidia DGX H100. Sem aditivo, o projeto entra na fila de demandas de TI da estatal.
O que observar daqui para frente
O maior ativo do EnergyGPT hoje não é o futuro conversacional, e sim o “fiscal chato” que olha 100% dos serviços — inclusive os que ninguém tinha tempo de checar. Se a API sair do papel e a tecnologia for empacotada para outras distribuidoras, o padrão de qualidade da rede brasileira pode subir sem aumentar a conta de luz. Fique atento ao movimento de abertura do código para o ecossistema de inovação da Cemig: startups do programa já chegam com IAs de terceiros, mas a tendência é que migrem para o motor caseiro.
