Economia

Fim da escala 6×1: shoppings veem rombo de R$ 14 bi e guerra por comissões

Shopping center vazio com vitrines fechadas representando prejuízo de R$ 14 bi com fim da escala 6x1
Projeção aponta queda de R$ 14,7 bi no faturamento dos shoppings no primeiro ano sem a escala 6x1.

O fim da escala 6×1 deve encolher o faturamento dos shoppings centers em R$ 14,7 bilhões já no primeiro ano de vigência, segundo projeção da Tendências Consultoria encomendada pelo setor. A conta fecha em R$ 186,2 bilhões — bem abaixo dos R$ 200,9 bilhões registrados em 2024.

O golpe atinge em cheio o pequeno lojista: quase 60% das 124,8 mil lojas têm entre três e cinco funcionários. Para eles, contratar um ou dois empregados extras para cobrir a folga adicional eleva a folha de pagamento em 30% a 40%, o que, na prática, torna a operação inviável.

Como a conta chega ao bolso do vendedor

A jornada semanal cairá de 44 para 42 horas 60 dias após a promulgação da emenda constitucional. Doze meses depois, baixa para 40 horas. A regra vale para todos, mas o varejo de shopping — que opera sete dias por semana — não tem a mesma flexibilidade de uma fábrica ou escritório.

  • Pequeno lojista (3 a 5 funcionários): precisa contratar 1 a 2 pessoas → impacto de 30% a 40% no custo total com pessoal.
  • Grande rede (centenas de funcionários): absorve a mudança com remanejamento interno → impacto marginal.

Glauco Humai, presidente da Abrasce, não se opõe à redução da jornada, mas cobra transição escalonada por setor e porte. “Queremos um estudo que ainda não foi apresentado. Precisamos entender como absorver isso sem quebrar a ponta da cadeia”, afirma.

Emprego e informalidade: o cenário para 2025 em diante

O setor emprega hoje 1,1 milhão de pessoas diretamente. A mesma projeção da Tendências aponta queda para cerca de 950 mil postos — 150 mil vagas a menos. O risco de expansão da informalidade cresce: lojistas pressionados podem optar por contratos por hora ou “bicos” sem carteira assinada para fechar a escala.

Mas o efeito mais relevante aparece na relação entre salário fixo e comissão.

A guerra pelos fins de semana

Para Nabil Sahyoun, presidente da Alshop, a medida é “eleitoreira”. Ele defende o modelo de contratação por horas trabalhadas, proposto pelo senador Rogério Marinho (PL-RN), como alternativa mais flexível.

O argumento central: com a folga extra obrigatória, sábado e domingo — dias de maior fluxo e maiores comissões — viram objeto de disputa acirrada. “Todo mundo vai querer trabalhar no fim de semana porque é onde se ganha dinheiro. Com salário mínimo ninguém sustenta família, paga escola, prestação do carro”, diz Sahyoun.

Ele vai além: projeta impacto na saúde mental. “O cara vai pirar descansando dois dias na semana. Pode começar a beber, ficar frustrado, entrar em depressão.” A fala reflete a visão de quem lida diariamente com vendedores comissionados.

O que observar daqui para frente

Três variáveis definirão o tamanho real do impacto nos próximos 18 meses:

  • Regulamentação setorial: se o Congresso ou o governo editar normas de transição para varejo de fim de semana.
  • Adaptação tecnológica: adoção de escalas automatizadas, banco de horas e contratos intermitentes para reduzir custo marginal.
  • Comportamento do consumidor: se o fluxo de fim de semana se mantiver, a pressão por comissão continua; se migrar para dias úteis, a disputa arrefece.

Para o empresário ou investidor, o sinal é claro: margens do varejo de shopping vão comprimir no curto prazo. Quem tem caixa e escala para investir em gestão de jornada e tecnologia de escala sai na frente. Quem opera no limite — a maioria dos 60% de lojas pequenas — precisa renegociar aluguel, mix de produtos ou formato de remuneração da equipe antes que a nova regra entre em vigor.