Economia

O que Flávio Bolsonaro copiaria de Milei se chegasse ao Planalto?

Flávio Bolsonaro e Javier Milei lado a lado, comparação política Brasil-Argentina
Flávio Bolsonaro e Javier Milei: semelhanças retóricas, desafios institucionais distintos.

Se Flávio Bolsonaro vencesse o primeiro turno da corrida presidencial, o modelo argentino de Javier Milei viraria referência obrigatória nos gabinetes de Brasília. A semelhança retórica entre os dois salta aos olhos, mas o teste real está na execução. O que funciona em Buenos Aires pode travacar no Congresso Nacional.

O economista-chefe da XP, Caio Megale, resume o dilema: “Milei teve superpoderes delegados por decreto. No Brasil, qualquer reforma estrutural passa por 513 deputados e 81 senadores”. A diferença institucional é o primeiro muro.

O choque fiscal que o Brasil não consegue replicar

Na Argentina, o ajuste veio com motosserra: corte de 30% nos gastos discricionários no primeiro mês, fim de subsídios de energia e transporte, demissão de 70 mil servidores contratados. O resultado? Superávit primário de 0,4% do PIB no primeiro trimestre — o melhor desde 2008.

No Brasil, o arcabouço fiscal de Haddad permite expansão real de 2,5% ao ano. Para igualar o esforço argentino, seria necessário congelar salários, barrar reajustes do funcionalismo e segurar o Bolsa Família no valor nominal. Politicamente, é suicídio.

Três lições que até o Centrão aceitaria

  • Desburocratização por decreto: Milei revogou 300 normas em 100 dias. O Brasil tem estoque de 180 mil atos normativos ativos — boa parte inócua.
  • Fim de estatais deficitárias: A Argentina fechou a Télam e privatizou a Aerolíneas. Aqui, Correios e Eletrobras (pós-privatização) ainda sangram recursos.
  • Âncora cambial crível: O “crawling peg” de 2% ao mês ancorou expectativas. O Brasil flutua livre, mas o BC gasta US$ 40 bi/ano em swaps para conter volatilidade.

Essas medidas não exigem emenda constitucional. Bastam caneta e vontade política — dois ativos que Flávio teria em abundância no início do mandato.

O risco da “dolarização” tupiniquim

Milei prometeu dolarizar e recuou. Flávio já flertou com “moeda única sul-americana” e “fim do real”. Em ambos os casos, o mercado pune a incerteza: o risco-país argentino caiu de 2.800 para 1.200 pontos, mas o brasileiro travou em 220 — sinal de que investidor não compra promessa, compra trajetória.

O diretor do FMI para o Hemisfério Ocidental, Rodrigo Valdés, avisou: “Credibilidade se constrói com superávit primário sustentado, não com anúncios de Twitter”. O Brasil precisa de 1,5% do PIB de superávit para estabilizar dívida. Hoje, projeta déficit de 0,6%.

O que os mercados vão cobrar nos primeiros 100 dias

Se a vitória se confirmar, a curva de juros futura precificará três variáveis: (1) nome do ministro da Fazenda — perfil ortodoxo derruba prêmio de risco em 50 bps na hora; (2) sinalização sobre regra de ouro e indexadores; (3) disposição para enfrentar corporações (Auditores Fiscais, carreiras jurídicas, militares).

O estrategista da Garde Asset, Daniel Leichsenring, calcula: “Cada mês de atraso na âncora fiscal custa 0,15% de PIB em prêmio de risco. Em quatro anos, são R$ 400 bi a mais em juros”. A conta chega no contribuinte.

O que observar daqui para frente

Não espere cópia carbono. O presidencialismo de coalizão brasileiro exige negociação que Milei evitou com decretos de necessidade e urgência — muitos derrubados pela justiça depois. O ganho real virá se Flávio usar o capital eleitoral para aprovar a reforma administrativa (PEC 32) e a tributária (já no Senado) no primeiro semestre. O resto é ruído.