O índice de preços ao consumidor (IPC) dos Estados Unidos subiu 0,6% em setembro, puxando a taxa acumulada em 12 meses para 3,7% — o maior nível desde maio. O dado, divulgado nesta quarta-feira (14), reacende o debate sobre mais uma alta de juros pelo Federal Reserve ainda este mês.
Metade da pressão mensal veio de um único item: a gasolina, que disparou 9,1%. Mas o detalhe que preocupa analistas está no núcleo da inflação, que exclui energia e alimentos.
O núcleo não cede — e isso muda o jogo
O IPC subjacente avançou 0,3% no mês, repetindo o ritmo de agosto e vindo acima da mediana das projeções (0,2%). Em 12 meses, o núcleo acumula 2,6%, contra 2,4% no mês anterior.
Três componentes explicam a resistência:
- Moradia: +0,4% (aluguel equivalente dos proprietários, +0,3%)
- Carros usados: +0,7%
- Passagens aéreas: +1,2%, reflexo do querosene de aviação mais caro
O custo de lazer e educação também subiu, assim como vestuário (+0,3%). A largada da “última milha” rumo à meta de 2% parece mais íngreme do que o Fed previa.
Mercado precifica risco real de alta em outubro
Antes do relatório, a ferramenta FedWatch do CME Group apontava 22% de chance de elevação de 25 pontos-base na reunião de 27 e 28 de outubro. Após o dado, a probabilidade saltou para cerca de 52%.
A reação foi imediata: rendimentos dos Treasuries subiram, o dólar fortaleceu-se ante uma cesta de moedas e as bolsas americanas abriram em queda. O cenário base de “pausa prolongada” perde força.
O choque da gasolina e o risco de contágio
A escalada nos postos — alimentada por tensões geopolíticas no Oriente Médio — não ficou restrita à bomba. O diesel atingiu máximas históricas, elevando o custo do frete e ameaçando repassar-se às gôndolas dos supermercados nas próximas semanas.
Por enquanto, os alimentos em casa recuaram 0,1% no mês (carne bovina -1,0%, laticínios -0,9%), mas bebidas não alcoólicas (+0,9%) e frutas e verduras (+0,5%) já mostram sinais de pressão. A inflação anual de alimentos permanece em 1,8%.
Consequência política e o bolso do eleitor
Pesquisa Reuters/Ipsos revela que 78% dos americanos atribuem a alta do custo de vida às políticas da atual administração — tarifas e decisões de política externa. A aprovação do presidente caiu, e a confiança do consumidor deteriorou-se em outubro, a semanas das eleições legislativas de 3 de novembro.
Para o Fed, o desafio é duplo: conter a inflação sem sufocar uma economia que ainda gera empregos, mas dá sinais de fadiga.
O que observar daqui para frente
Três variáveis ditarão o ritmo dos juros nos próximos meses: a trajetória do petróleo (e seu impacto no diesel e no querosene), a desaceleração do componente de moradia — que responde por cerca de um terço do IPC — e os dados de emprego de outubro, previstos para novembro. O PCE de setembro, medida preferida do Fed, sairá no dia 27, véspera da reunião. Se vier quente, a porta para mais um aperto estará escancarada.
