Economia

A “sessão brutal” que expôs a fragilidade do boom da IA: chips caem 25% e IPO de US$ 5 bi falha

Gráfico mostra queda de 25% em ações de semicondutores e falha de IPO de US$ 5 bi no setor de IA
Colapso sincronizado de chips expõe fragilidade do boom da inteligência artificial.

As ações de semicondutores entraram em colapso sincronizado nesta terça-feira, com o índice KOSPI sul-coreano despencando mais de 6% e a fabricante de memórias Kioxia tombando 13% em Tóquio. O movimento marcou o quinto dia seguido de liquidação na Ásia e a sexta queda consecutiva do índice SOX nos EUA, sinalizando que o custo de capital finalmente alcançou a euforia da inteligência artificial.

O gatilho não foi um balanço decepcionante, nem um alerta regulatório. Foi a matemática fria dos juros altos combinada com a impaciência do capital.

O fio que partiu: custo de dinheiro e IPO cancelado

Na semana passada, a Firmus — operadora de data centers apoiada pela Nvidia — suspendeu uma oferta pública inicial de US$ 5 bilhões na Austrália. A justificativa oficial: “queda no interesse dos investidores”. Em termos práticos, o mercado disse não a financiar infraestrutura de IA a qualquer preço.

Dois dias depois, a Tencent captou dívida em Hong Kong com spread de 1,15 ponto percentual acima dos Treasuries de 10 anos, que rendem 5,2%. A SoftBank, no mês anterior, pagou 9,75% ao ano por US$ 4,5 bilhões em títulos de alto rendimento com vencimento em sete anos e meio. O recado é uníssono: dinheiro caro tornou-se o novo filtro para projetos de IA.

Números que não mentem: a extensão do estrago

  • KOSPI: maior sequência de perdas em dois anos; -25% desde as máximas de julho
  • STAR Market (Xangai): -33% em relação aos picos de julho
  • SOX (EUA): -2,7% na sessão; ainda acumula +68% no ano
  • Micron: -5% no dia; ação triplicou em 2024
  • Samsung Electronics: -10% na segunda-feira
  • SK Hynix: -8% no mesmo pregão

Essas quedas são as mais acentuadas desde o episódio de final de julho, quando o mesmo grupo de ações sofreu correção violenta. A diferença agora é a amplitude: o contágio alcançou mercado primário (IPOs) e dívida corporativa simultaneamente.

O que dizem os gestores de bilhões

Damien Boey, estrategista da Wilson Asset Management em Sydney, resume o diagnóstico: “O desdobramento mais importante não tem sido apenas a alta nos rendimentos dos títulos, mas a volatilidade dos títulos… e isso está começando a se refletir nos preços dos ativos em todos os setores”.

O braço de pesquisa da BlackRock, maior gestora do mundo, rebaixou a perspectiva para bolsas dos EUA a “neutra”, citando “possível volatilidade em torno da expansão da IA”. O FMI, em seu relatório de estabilidade financeira divulgado ontem, foi direto: “As consequências de uma correção no setor de IA podem ser globais”. O fundo reconhece a contribuição da tecnologia para o crescimento, mas alerta que “investimentos em capacidade e ganhos econômicos podem não ser tão grandes quanto o esperado”.

Fim do ciclo ou mudança de fase?

Poucos declararam o fim da alta estrutural. Na contramão do massacre, as ações da Meta subiram 3,4% na segunda-feira após o lançamento de novo modelo de IA. Marc Velan, CIO da Lucerne Asset Management em Cingapura, enxerga transição, não ruptura: “Suspeito que estejamos entrando na próxima fase do ciclo da IA, em que os mercados se concentram cada vez mais na monetização e no retorno sobre o capital investido… A Coreia pode ser um sinal de alerta precoce de uma reestruturação mais ampla”.

O presidente-executivo da Broadcom, em conferência em Cingapura, foi cirúrgico: o capital é hoje o maior obstáculo ao crescimento do setor.

O que observar daqui para frente

Três variáveis ditarão o ritmo nos próximos meses: a trajetória dos rendimentos dos Treasuries de 10 anos (hoje em 5,2%), a capacidade das grandes tecnológicas de converter capex em receita recorrente de IA e a disposição do mercado primário em absorver novos IPOs de infraestrutura. Se o IPO da Firmus permanecer engavetado e novos emissores adiarem ofertas, o sinal será claro: o capital passou a exigir payback tangível, não apenas narrativa. Quem tem caixa e fluxo de caixa operacional forte passa a ter vantagem competitiva decisiva.