Empresários injetaram R$ 2,3 milhões no Partido Liberal nos dias seguintes à votação de 2 de outubro, enquanto o Partido dos Trabalhadores declarou apenas R$ 85 mil no mesmo período — uma diferença de 27 vezes. O movimento expõe como setores regulados e dependentes de contratos públicos reagiram ao resultado do primeiro turno.
Os números constam nas prestações de contas parciais entregues à Justiça Eleitoral desde 4 de outubro. A concentração de recursos no PL sugere uma aposta do mercado no candidato que liderou a etapa inicial com 2 milhões de votos de vantagem.
De onde vem o dinheiro e para onde ele vai
Diferente das doações diretas a candidatos, os aportes às siglas não aparecem na contabilidade individual das campanhas. O mecanismo permite que grandes valores circulem com menos visibilidade imediata, embora sejam públicos nos sistemas do TSE.
Os setores que mais pesaram na balança são justamente aqueles com maior exposição a decisões federais:
- Finanças: gestores da Perfin e sócios do Banco Mercantil
- Combustíveis: dono da rede Potencial, do Paraná
- Mineração: controladores da Flapa e da Tramix
- Infraestrutura: empresários com histórico em concessões públicas
Nomes, valores e o que disseram os citados
Ralph Gustavo Rosemberg Whitaker Carneiro e Bruno Baptistella, da Perfin, assinaram cheques de R$ 500 mil cada. Arnoldo Hammerschmidt, da Potencial, destinou R$ 600 mil. Luiz Henrique Andrade de Araujo e Pedro Henrique de Oliveira, do Banco Mercantil, contribuíram com R$ 100 mil cada — em caráter estritamente pessoal, segundo nota do banco.
Na mineração, Valeria Fernandez Borges Dias (Flapa) e Renato Moraes Salvador Silva (Tramix) doaram R$ 200 mil cada. Procuradas, as empresas não comentaram.
O PT, por sua vez, recebeu aportes de nomes ligados à agroindústria canavieira. Carlos Ubiratan Garms, presidente do conselho da Única, doou aos dois partidos. A entidade esclareceu que a contribuição não representa posicionamento institucional.
O que muda no segundo turno
A disparidade de 3,7% na arrecadação partidária reflete mais do que preferência ideológica. Setores que dependem de agências reguladoras — ANP, ANM, CVM, Aneel — tendem a antecipar cenários de risco regulatório.
Parte dos doadores ouvidos sob reserva admitiu ter destinado recursos a ambas as legendas, com declarações ainda pendentes. Se confirmado, o fluxo duplo indicaria estratégia de hedge político, não alinhamento exclusivo.
O retrovisor do primeiro turno
Antes de 2 de outubro, o PL já havia captado R$ 2,5 milhões apenas da família Gerdau Johannpeter. A maior doação direta a Flávio Bolsonaro veio de Angela Cristina Cattozatto Fortunato (R$ 1 milhão), esposa do controlador do Grupo OCQ. Luiz da Rocha Salles Filho, ex-sócio da OAS, repetiu o valor.
No lado petista, o teto foi de R$ 500 mil — Sergio Augusto Guerra de Resende, fundador da Locamerica e acionista da Localiza. Jose Salim Mattar Junior, também da Localiza, destinou R$ 250 mil ao PL. Jose Seripieri Filho (Amil) e os irmãos Moreira Selles (Itaú) completaram a lista com valores na casa das centenas de milhares.
O que observar nas próximas semanas
As prestações de contas finais, exigidas até 20 de novembro, revelarão se o fluxo assimétrico se manteve ou se houve reequilíbrio. Doações não declaradas no prazo legal podem gerar questionamentos judiciais e multas.
Para quem acompanha o ambiente de negócios, o sinal está dado: a leitura do setor privado sobre viabilidade eleitoral move capital antes do voto. Monitorar a origem setorial dos aportes — e não apenas o volume — permite antecipar quais agendas regulatórias ganharão ou perderão força no próximo governo.
