O Goldman Sachs revisou drasticamente sua projeção para o câmbio: o dólar deve fechar o trimestre cotado a R$ 4,70, bem abaixo dos R$ 5,20 estimados anteriormente. A mudança reflete a leitura do banco sobre o resultado do primeiro turno das eleições presidenciais, que elevou as apostas em uma vitória do candidato do PL no dia 25.
Mas a euforia cambial tem data para ser testada. O relatório alerta que a manutenção desse patamar depende de um “se” de peso: a implementação efetiva de um ajuste fiscal crível nos primeiros meses de gestão.
O choque nas expectativas: de R$ 5,20 para R$ 4,70 em dias
A valorização superior a 4% do real nas sessões seguintes à votação não foi um movimento isolado. Ela espelha a surpresa dos investidores com a vantagem numérica aberta pelo candidato da oposição, o que reconfigurou os modelos de risco político da instituição.
Na prática, o mercado precificou a continuidade de uma agenda econômica alinhada ao centro-direita. O banco projeta agora uma trajetória de apreciação gradual:
- 3 meses: R$ 4,70
- 6 meses: R$ 4,75
- 12 meses: R$ 4,80
A faixa entre R$ 4,50 e R$ 4,80 é considerada “plausível” para um cenário de compressão total do prêmio de risco fiscal embutido na moeda em 2024.
Congresso conservador: o pilar oculto da tese de valorização
Não foi apenas a disputa presidencial que moveu a régua. O desempenho de candidatos de centro-direita e conservadores nas eleições para Câmara, Senado e governos estaduais superou as projeções mais otimistas.
Para o Goldman, isso desenha um cenário de governabilidade facilitada — contrastando com o Congresso fragmentado que marcou os últimos quatro anos. A expectativa é de menor resistência a reformas estruturais e ao arcabouço fiscal.
O precedente de 2018 e o rali que pode continuar
A história recente oferece um roteiro conhecido. Em 2018, o dólar recuou cerca de 10% entre o primeiro e o segundo turno. Se o padrão se repetir, o real tem espaço para ganhar mais fôlego nas próximas semanas, independentemente de fundamentos fiscais imediatos.
Contudo, a analogia tem limites. Desta vez, a taxa de juros real mais elevada — que hoje atrai capital externo — deve começar a cair. Cortes na Selic reduzem o “carry trade” e tiram um dos pilares de sustentação da moeda brasileira no médio prazo.
Dezembro: o teste de estresse sazonal
O banco chama atenção para um obstáculo técnico muitas vezes ignorado: o fim de ano. Dezembro costuma concentrar saídas sazonais de capital (remessa de lucros, pagamento de dívidas externas, ajuste de balanços).
Se os anúncios de política fiscal e a composição do ministério decepcionarem justamente nessa janela de menor liquidez, a volatilidade pode disparar — mesmo com a definição eleitoral já resolvida.
O que observar daqui para a frente
O script para os próximos 90 dias está escrito em três atos: nomes para a equipe econômica, primeiras medidas de contenção de despesa e reação do Congresso à pauta fiscal. A cotação de R$ 4,70 não é um teto garantido, mas um prêmio pela expectativa de responsabilidade. Se a entrega não vier, o caminho de volta para R$ 5,20 é mais curto do que a memória do mercado gosta de admitir.
