O Grupo Primo acaba de fechar a maior aquisição de sua história ao incorporar a Oikos, multi-family office das famílias Zarzur e Grisi, em uma transação que eleva seus ativos sob custódia para R$ 34 bilhões. A operação, feita inteiramente via troca de ações, transforma a estrutura acionária do grupo liderado por Thiago Nigro e sinaliza uma guinada definitiva no modelo de assessoria de investimentos no Brasil.
Mas o tamanho do cheque não é o único detalhe que chama atenção. A fusão expõe uma lacuna que o próprio Primo tentava preencher há tempos: como atender o ultra high net worth sem abrir mão da escala conquistada nas redes sociais.
A engenharia do negócio e os números da operação
A Oikos traz para a mesa R$ 8 bilhões em ativos e uma carteira ultraconcentrada: apenas 40 famílias, com tíquete médio de R$ 200 milhões e entrada mínima de R$ 100 milhões. Em contrapartida, o Primo vinha operando com 44 mil clientes e um tíquete médio na casa dos R$ 860 mil — volume expressivo, mas distante do patamar “private” tradicional.
A equação fechou porque as necessidades eram complementares:
- Prino: precisava de expertise, brand equity no altíssimo patrimônio e uma estrutura de atendimento sob medida para clientes acima de R$ 20 milhões.
- Oikos: buscava reduzir seu tíquete mínimo para R$ 20 milhões, mas faltava capilaridade, tecnologia e uma máquina de aquisição de clientes.
Fernando Vasconcellos, CEO do Primo, resumiu a lógica: a independência e o modelo fee-based eram valores inegociáveis para ambos os lados. “Quando conhecemos a Oikos vimos que eles tinham os mesmos valores e a mesma visão”, afirmou.
O segredo da independência: multi-custódia contra mono-custódia
O ponto nevrálgico da tese de ambos os sócios é a arquitetura de custódia. Nigro fez questão de demarcar território: o mercado caminha para o fee-based, mas muitos players adotam a mono-custódia — o que, na prática, mantém o conflito de interesse ao priorizar produtos da casa.
“Somos livres para abrir conta em qualquer instituição e atender o cliente na melhor instituição para ele”, disse Nigro. A Oikos já operava assim; o Primo adota o mesmo princípio desde a compra da Portfel, em 2023. A fusão consolida, portanto, o maior bloco independente de advisory multi-custódia do país.
Governança blindada: o papel da XP no tabuleiro
Um detalhe que costuma passar despercebido, mas define a autonomia estratégica do grupo, é a posição da XP. A corretora é investidora desde 2020 e ampliou a fatia no fim de 2024. No entanto, Nigro reforça: a XP é minoritária preferencialista, sem assento no conselho e sem poder de veto.
Essa governança foi decisiva para que os fundadores da Oikos — que já haviam rejeitado propostas de “casas grandes” — aceitassem o convite. Renato Mendes, co-fundador da Oikos, foi direto: “Queríamos fazer uma transação que garantisse que não perderíamos a independência”.
Da educação em massa à gestão de fortunas: a receita de R$ 500 mi
A transação também ilumina a metamorfose do negócio de Nigro. O que nasceu como canal no YouTube virou uma máquina de receita diversificada. A projeção para 2026 é faturar R$ 500 milhões, com divisão quase simétrica:
- 50% vindo de consultoria de investimentos e da gestora própria (Grão);
- 50% oriundos de educação financeira, cursos e monetização de audiência.
Com a Oikos, a expectativa é fechar o ano em R$ 40 bilhões sob custódia. A meta ousada de R$ 100 bilhões até 2028 admite novos M&As, embora a estratégia principal continue sendo o crescimento orgânico da base de advisory.
O que observar daqui para frente
A integração das culturas — uma baseada em escala, tecnologia e comunicação de massa; a outra, em discrição, relacionamento profundo e bespoke — será o teste real. O mercado acompanhará se o modelo fee-based multi-custódia consegue escalar sem diluir o serviço ao cliente final.
Para o investidor e o empresário, o recado é claro: a fronteira entre “assessoria digital” e “family office tradicional” acabou de ruir. Quem souber navegar nessa nova configuração — independente, tecnológica e com acesso a produto global — tende a capturar a fatia mais valiosa do patrimônio brasileiro nos próximos anos.
