O próximo presidente herdará uma dívida pública que caminha para 100% do PIB em quatro anos se nada for feito. Especialistas alertam: o ajuste fiscal é urgente, mas Lula e Flávio Bolsonaro evitaram detalhar cortes na campanha. A definição de quem assume o Planalto ditará se o juro cai para 11% ou fica nos dois dígitos por anos.
O abismo fiscal que ninguém quer tocar
Em agosto, a dívida bruta bateu 82,9% do PIB. Segundo Solange Srour, do UBS, sem ação ela sobe 5 pontos percentuais ao ano. O empate técnico é perigoso: 90% das despesas são obrigatórias, o que exige PECs no Congresso e disputa no STF.
O governo atual aposta em brechas no arcabouço e alta de arrecadação sem conter gastos reais. Do outro lado, a equipe de Flávio Bolsonaro — com nomes como Daniella Marques e Adolfo Sachsida — promete um “choque de credibilidade” pró-mercado. Resta saber se o capital político será gasto na economia ou em pautas jurídicas da família.
Samuel Pessoa, da FGV IBRE, resume o dilema: equilibrar demanda dos mais pobres com a capacidade da economia de entregar resultado. Ivo Chermont, da Quantitas, avisa: energia política para as duas frentes costuma faltar.
Gastos obrigatórios: o nó que aperta o Orçamento
A medida mais urgente é harmonizar despesas com a regra do arcabouço. Isso passa por mexer em três pilares intocáveis:
- Vinculação automática de saúde e educação à receita corrente;
- Fórmula do salário mínimo que empurra a previdência para cima;
- Supersalários nos três poderes e subvenções a setores privados.
Srour defende redesenhar programas sociais focando em qualificação profissional. Chermont vai além: quer reforma administrativa ampla e transparência nas emendas parlamentares. O governo Lula resiste a mexer no mínimo e nas vinculações. A proposta do PL foca em extinguir ministérios e suspender concursos — medidas que, segundo os economistas, têm impacto fiscal baixo frente ao peso das obrigatórias.
Juros e inflação: a conta que o fiscal manda
A Selic não cai sem ancoragem fiscal. Com Gabriel Galípolo no BC, a independência técnica existe, mas gastos extras pressionam demanda e inflação, forçando juros altos.
Cenário Lula (modelo atual): Selic em dois dígitos por tempo prolongado. Cenário Flávio (com reformas sinalizadas cedo): Selic entre 11% e 11,5%, limitado pelos juros altos nos EUA. Chermont destaca: a reação positiva de ativos e câmbio depende de sinalização imediata pós-urnas.
Pressões externas para 2027 não perdoam: El Niño, custos da transição tributária no setor de serviços e eventual fim da jornada 6×1 exigem prudência monetária, venha quem vier.
Comércio exterior: pragmatismo versus alinhamento
A China segue como maior parceiro do agro e mineração; EUA e Europa, fontes de capital e tecnologia. Srour não vê ruptura brusca em nenhum dos casos. Pessoa avalia que a postura proativa do Itamaraty deve ser preservada.
Chermont projeta diferenças de tom: Flávio tenderia a alinhamento com EUA (Trump) e Argentina, com flexibilidade em terras raras. Lula manteria postura mais combativa e resistente a concessões. Forças comerciais, porém, impedem rompimento relevante com Pequim.
Reforma Tributária: continuar ou “pausar”?
O ciclo 2027–2030 exige fechar alíquotas do IVA/CBS e Imposto Seletivo para dar segurança jurídica antes da transição. Srour é taxativa: não reabrir o texto constitucional para novas exceções — cada benefício eleva a alíquota padrão dos demais.
No governo Lula, andamento segue sem alterações. A candidatura Flávio sinaliza “pausar” para uma “reforma da reforma”. Pessoa alerta para retrocesso e insegurança jurídica. Srour completa: adiar regulamentação atrapalha planejamento das empresas e aumenta incertezas.
O que observar daqui para frente
O vencedor terá dias, não meses, para anunciar medidas fiscais convincentes — antes da posse. O mercado precificará a credibilidade do pacote na curva de juros longos e no câmbio. Acompanhe a composição da equipe econômica e a disposição para enfrentar as vinculações constitucionais na primeira semana. É aí que o discurso vira número.
