Economia

O segredo dos R$ 35 bi que pode sumir da sua carteira…

Gráfico mostra R$ 35 bilhões em FIDCs de direitos creditórios judiciais sob novas regras do CMN
Mudanças do CMN atingem R$ 35 bi em fundos de direitos creditórios judiciais após caso Banco Master.

O Conselho Monetário Nacional mudou as regras dos FIDCs em setembro e quem tem cotas desses fundos pode ver o patrimônio encolher nos próximos meses. A medida atinge diretamente R$ 35 bilhões aplicados em direitos creditórios judiciais — ativos cujo valor real ninguém sabe ao certo.

O gatilho foi a operação do Banco Master, mas o efeito alcança gestoras sérias e investidores profissionais que não têm nada a ver com o esquema.

Como a “faxina” chegou nos fundos de direitos creditórios

Em maio, a ligação entre o banqueiro Daniel Vorcaro e a produção do filme “Dark Horse” expôs um circuito de repasses superiores a R$ 60 milhões. O caminho do dinheiro passava por fundos geridos pela Reag, gestora que atuava como ponte entre o Master e o mercado de capitais.

O modelo era simples: o banco comprava direitos de indenização de usinas contra a União, empacotava nos FIDCs e vendia as cotas. A suspeita é que Vorcaro tentava influenciar magistrados para valorizar esses ativos antes da revenda.

Investigações da CVM já encontraram precatórios superavaliados, cedidos em duplicidade e sem lastro real. O fundo dizia que valiam X, o investidor comprava, e o dinheiro já tinha circulado.

O que muda a partir de 13 de outubro

A resolução do CMN proíbe FIDCs de adquirirem novos créditos judiciais ou arbitrais em andamento — só entra precatório já formado. O estoque existente precisará seguir metodologias de avaliação mais rigorosas e regras de transparência reforçadas.

  • Vedação total a novos créditos judiciais não precatórios
  • Reavaliação obrigatória do estoque atual com critérios mais duros
  • Divulgação periódica de laudos e premissas de valuation

Para o segmento, foi uma bomba. Gestoras que operavam dentro da lei terão custos de compliance mais altos. Picaretas, segundo fontes do mercado, apenas migrarão para outros veículos.

O efeito colateral no bolso do investidor profissional

Não há aumento automático de taxa de administração. Mas se os ativos forem reprecificados para baixo — e a CVM já sinalizou que muitos estão inflados —, o rendimento líquido cai. Quem comprou cota a R$ 100 pode ver o valor patrimonial desabar para R$ 70, R$ 60 ou menos.

E a liquidez? Tendência de secar. Sem novos compradores para ativos de valuation incerto, o mercado secundário trava.

A rota de fuga que já está sendo desenhada

Enquanto a regra valer só para FIDCs, gestoras estudam empacotar os mesmos créditos judiciais em SPEs (Sociedades de Propósito Específico) controladas por Fundos de Investimento em Participações (FIPs). Perde-se o incentivo tributário, ganha-se a liberdade regulatória.

Ou seja: a estrutura muda, o risco permanece, e o investidor paga mais caro para enxergar menos.

O que observar daqui para frente

Acompanhe os relatórios de reavaliação dos FIDCs nos próximos trimestres — é ali que o tamanho do buraco aparecerá. Verifique se a gestora adotou laudos independentes ou manteve modelos internos. E desconfie de fundos que prometam “estruturas alternativas” para manter o mesmo portfólio: a fraude costuma mudar de endereço, não de natureza.