O próximo ocupante do Planalto assumirá em 2027 com o desemprego no piso histórico, mas herdará uma economia travada por juros reais dos mais altos do planeta. A combinação entre Selic elevada, endividamento recorde das famílias e uma regra fiscal que ainda não convence o mercado cria um cenário de risco para quem aposta no crescimento sustentável.
A pergunta que fica é: haverá espaço político e fiscal para virar essa chave sem provocar uma recessão mais funda? A resposta passa, obrigatoriamente, por escolhas duras nos primeiros meses de mandato.
O muro dos juros reais e o custo do crédito
A taxa básica está em 13,75% ao ano após ter batido 15%. Em termos reais, o Brasil segue no topo do ranking global. O Banco Central mantém esse patamar para perseguir a meta de 3% de inflação, mas o efeito colateral é imediato: o crédito caro freia o investimento produtivo e empurra a inadimplência para níveis preocupantes.
Não é apenas a Selic que assusta. O spread bancário — a diferença entre o que o banco paga e o que cobra do cliente final — permanece estratosférico. Analistas alertam que plataformas digitais ofertam crédito sem critério rigoroso, inflando o risco sistêmico. Reduzir esse custo final exige mais que cortar a taxa básica; demanda uma reforma no funcionamento do sistema financeiro.
O ajuste fiscal que não pode ser “choque”
Para especialistas, a única rota sustentável para juros menores passa pelo reequilíbrio das contas públicas. O país não registra superávit primário sustentado desde 2014. A dívida pública cresce em trajetória que assusta investidores e eleva o prêmio de risco.
O desafio é desenhar um programa de ajuste crível, com resultados perceptíveis já no primeiro ano, mas sem o trauma de um “choque” recessivo. Na mesa de negociação, entram itens sensíveis:
- Vinculações e indexações obrigatórias do Orçamento;
- Subsídios tributários e financeiros;
- Supersalários no funcionalismo;
- Regras da previdência dos militares;
- Execução de emendas parlamentares.
O arcabouço fiscal vigente ainda não dissipou a desconfiança. Sem uma sinalização clara de estabilização da dívida, o prêmio de risco segue pressionando a curva de juros longa e o câmbio.
Produtividade estagnada: o gargalo estrutural
Mesmo que o fiscal se organize, o Brasil esbarra em um teto baixo de crescimento potencial. A produtividade do trabalho mal avança há décadas. Sem ganhos reais de eficiência, aumentos salariais dependem de endividamento ou de estímulos artificiais que, no futuro, cobram a conta com juros.
Projeções indicam que o mercado de trabalho deve perder dinamismo ao longo de 2027. A regra que limita a valorização do salário-mínimo ao teto do arcabouço ajuda a conter pressões de custo, mas não resolve a raiz do problema: a baixa qualificação da mão de obra e o ambiente de negócios burocrático.
Comércio exterior: a peça que falta no tabuleiro
Em um mundo marcado por guerras comerciais, tarifaços dos EUA e instabilidade no Oriente Médio, o Brasil precisa diversificar parceiros. O Mercosul, nas regras atuais, impede acordos bilaterais ágeis. A tarifa média de importação ainda é alta e o emaranhado de barreiras não tarifárias — bitributação, normas técnicas divergentes — cria um “mosaico” de incertezas para o exportador.
Economistas defendem uma abertura gradual e unilateral de tarifas, combinada com uma reforma profunda nas barreiras burocráticas. Fechar acordos com grandes blocos e potências individuais deixa de ser opção estratégica para virar condição de sobrevivência da indústria nacional nas novas cadeias de energia e tecnologia.
O que observar daqui para frente
O desenho dos primeiros 180 dias do próximo governo ditará o ritmo dos juros e do crédito até 2030. Três sinais merecem monitoramento diário: a velocidade de aprovação de medidas de contenção de despesas obrigatórias no Congresso, a reação do Banco Central às expectativas de inflação desancoradas e a disposição do Executivo para enfrentar a reforma do Mercosul e a redução de tarifas. Quem opera no mercado ou gere negócios deve precificar cenários onde o ajuste fiscal avança — mas a produtividade demora a responder.
