Economia

Você não vai acreditar na nova fala de Lula sobre cartões…

Lula em entrevista no podcast Flow falando sobre cartões de crédito
Presidente Lula corrige declaração sobre limite de cartões de crédito por CPF.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva usou as redes sociais nesta sexta-feira para corrigir o rumo de uma declaração dada 24 horas antes. Em entrevista ao podcast Flow, ele havia defendido o limite de um único cartão de crédito por CPF. Agora, o Planalto garante: o cidadão pode ter quantos quiser. A proibição mira, na verdade, o envio não solicitado pelas instituições financeiras.

A reviravolta em menos de 24 horas

Na quinta-feira, a fala foi taxativa: “Vamos proibir os bancos de dar mais de um cartão de crédito por pessoa”. A menção ocorreu durante discussão com a diretoria do Banco Central. A repercussão imediata trouxe críticas de que a medida restringiria o acesso ao crédito e a concorrência entre bandeiras.

Nesta sexta, o tom mudou radicalmente. Lula classificou os juros do rotativo como “indecentes”, mas blindou o direito do consumidor de escolher quantos plásticos carregar na carteira. A nova narrativa ataca a prática de “empurrar” produtos ao cliente.

O que realmente fica proibido

O foco da regra em discussão técnica com o BC é a prática de envio em massa não solicitado (unsolicited mailing). Bancos e fintechs não poderão mais despachar cartões físicos para endereços de clientes que não pediram o produto. A mudança atinge diretamente modelos de aquisição baseados em mala direta.

Três pilares definem o escopo provável da norma:

  • Fim do envio físico de cartões não solicitados;
  • Manutenção do direito a múltiplos limites e bandeiras;
  • Pressão regulatória para redução dos juros do rotativo.

Reação política e ruído regulatório

A oposição usou a contradição para atacar o governo. O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) ironizou a mudança de discurso em vídeo nas redes sociais, direcionando críticas pessoais à primeira-dama Janja da Silva e alegando que a medida inicial prejudicaria a população de baixa renda.

Para analistas de mercado, o vai-e-vem presidencial aumenta a incerteza regulatória de curto prazo. O Banco Central, autônomo desde 2021, terá a palavra final sobre a normativa, o que deve ocorrer nos próximos trimestres via Resolução do CMN ou Instrução Normativa.

Juros no rotativo: o alvo real da discussão

Além da quantidade de plásticos, Lula reforçou a pressão por queda nos juros. O rotativo do cartão fechou 2023 com taxa média superior a 430% ao ano, segundo dados da autoridade monetária. A equipe econômica estuda teto para essa modalidade, mas esbarra no custo de funding dos bancos e nos índices de inadimplência das famílias.

Mas o efeito mais relevante aparece na estrutura de receita das instituições: a receita com juros do cartão representa fatia significativa do resultado do varejo bancário. Qualquer teto rígido força reprecificação de risco em toda a cadeia de crédito ao consumo.

O que observar daqui para frente

A resolução sobre “oferta não solicitada” deve ser o próximo passo concreto. Investidores, gestores de risco e estrategistas de produtos financeiros devem monitorar três variáveis decisivas:

  • Definição exata de “envio não solicitado” — se abrangerá ofertas digitais pré-aprovadas em aplicativos;
  • Impacto no Custo de Aquisição de Cliente (CAC) dos bancos, que perdem canal de ativação em massa;
  • Eventual teto de juros no rotativo, que altera a precificação de risco no varejo e a atratividade de fundos de recebíveis (FIDCs).

A sinalização do Planalto é de endurecimento contra práticas consideradas abusivas, mas a execução técnica caberá ao BC. O cenário base prevê normas mais duras para marketing ativo e discussão prolongada sobre o spread bancário.