Justiça

O esquema que ensina a burlar o veto às bets e já deixou milhares no prejuízo

Tipsters em grupos de Telegram ensinam burlar bloqueio de apostas no Brasil
Coaches de apostas lucram ensinando a driblar veto presidencial às bets em grupos com milhares de membros.

Coaches de apostas, conhecidos como tipsters, transformaram o veto presidencial em oportunidade de negócio: ensinam seguidores a driblar o bloqueio e lucram em cima de quem arrisca o próprio dinheiro. Desde 25 de setembro, quando a medida provisória entrou em vigor, a reportagem monitorou dez grupos no Telegram e no Discord — alguns com dezenas de milhares de membros — e mapeou como funciona a engrenagem.

O gancho é simples: promessas de ganhos fáceis, “dicas quentes” e a sensação de fazer parte de um clube exclusivo. Mas o caminho para apostar passou a exigir manobras arriscadas, como transferências em criptomoedas para desconhecidos e uso de plataformas fora da lei brasileira.

O tamanho da operação nas redes sociais

Os números impressionam. O maior grupo de Telegram acompanhado reunia 26.589 membros ativos. Perfis no Instagram e no X (antigo Twitter) com mais de 100 mil seguidores exibem links para esses canais na bio, acessíveis com uma busca rápida pelo termo “tipster”. O grupo mais antigo segue no ar desde 2022.

A estrutura costuma seguir este padrão:

  • Canal gratuito com “provas” de acertos passados (prints editáveis)
  • Grupo VIP pago, onde saem as “dicas reais”
  • Indicação de sites de apostas que aceitam brasileiros via cripto
  • Suporte que some quando há problema no saque

O caso do bolão presidencial que virou calote

O influenciador Diogo Pólvora, apelidado de MD Tips (depois rebatizado MD Sem Tips), organizou um bolão no segundo turno da eleição presidencial de 2022. Oferecia seis vezes o valor apostado caso Lula vencesse — prêmio muito acima do que a Polymarket, plataforma de previsões bloqueada no Brasil desde abril, indicava como justo.

Até 31 de outubro, 15 publicações no X com mais de mil curtidas no total denunciavam o não pagamento. Pólvora, dono de 165 mil seguidores apenas no X, alegou quebra de contrato com fornecedor não identificado e disse ter devolvido os valores originais com recursos próprios. A reportagem tentou contato por email, telefone das empresas registradas em seu nome e mensagens diretas: sem resposta.

Como o dinheiro entra e sai do país

Em canais como ESoccer Global, Clube GetUP e AutoBots Pybots, administradores indicam casas como a 1win.com, que aceita USDT (stablecoin atrelada ao dólar) via Pix através de instituições de pagamento. Para dar credibilidade, citam patrocínios de figuras conhecidas — o lutador Jon Jones, ex-campeão do UFC, aparece no banner do site.

Outros grupos, como Layback e SharkTool (Discord) e Arkeiros Trading (Telegram), vendem ou alugam softwares que conectam o apostador à Betfair (do mesmo grupo da BetNacional, hoje sob restrição) e a mercados preditivos como Kalshi e Polymarket. Há relatos de perdas irreversíveis em depósitos na Polymarket; um admin do Layback admitiu que a plataforma tem “várias páginas de instruções para prevenir erros”.

A resposta das plataformas e do governo

O cerco começou a fechar. Na quinta-feira (5), o grupo 9.Felipe Free foi derrubado pelo Telegram por violar termos de uso. Segundo relatório da Sedigi (Secretaria de Direitos Digitais, do Ministério da Justiça), obtido via Lei de Acesso à Informação:

  • 2.898 sites de apostas ilegais identificados
  • Cerca de 700 perfis no TikTok e Instagram
  • 1.295 grupos no Telegram
  • Um servidor no Discord

A Meta (dona do Instagram) afirma cumprir determinações governamentais. O TikTok removeu 27.882 anúncios entre 25 de setembro e 3 de outubro — 450 a pedido direto do governo. A Secretaria de Prêmios e Apostas (Fazenda) bloqueou mais de 126 mil sites desde o início da fiscalização em 2024 e atua também no bloqueio de contas financeiras usadas na operação.

O que muda para quem atua no mercado digital

A intermediação de apostas virou crime contra o consumidor com pena de até um ano de reclusão pela MP. Um projeto de lei em tramitação propõe elevar para seis anos de prisão para intermediadores. A Flutter, multinacional listada em Nova York que controla a Betfair, confirmou parceria com o SharkTool — software voltado a trading esportivo, modalidade proibida no Brasil onde as odds são definidas pelos próprios apostadores.

Para empreendedores e investidores, o recado é claro: o ecossistema de afiliados, tipsters e ferramentas de automação que operam na margem da lei está sob vigilância direta de três frentes — Ministério da Justiça, Fazenda e plataformas globais. Quem depende de tráfego oriundo desses canais para funis de venda, geração de leads ou branding precisa revisar contratos e políticas de compliance agora, não quando a notificação chegar.

O próximo passo do governo é a regulamentação definitiva do mercado de apostas, com licenças, tributação e regras de publicidade. Até lá, a zona cinzenta segue rendendo — mas o custo de errar subiu de “conta bloqueada” para “processo criminal”.