A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) interrompeu o financiamento a dois dos principais instrumentos de monitoramento de discriminação no esporte nacional. A decisão atinge diretamente a publicação de anuários que documentam casos de LGBTfobia e racismo nos gramados, deixando coletivos de torcedores e pesquisadores sem recursos para dar continuidade ao trabalho.
O corte ocorre menos de um ano após a posse de Samir Xaud, que havia declarado compromisso público com a inclusão. A contradição entre o discurso oficial e a prática orçamentária levanta dúvidas sobre a prioridade real dada ao tema na nova gestão.
O que estava em jogo e por que parou
Desde 2022, o Coletivo de Torcidas Canarinhos LGBTQ+ produzia o Anuário do Observatório da LGBTfobia no Futebol com apoio financeiro da entidade — primeiro parcial, depois integral. A publicação sistematizava denúncias, mapeava iniciativas de diversidade e servia de base para cobranças por políticas efetivas.
Havia inclusive a expectativa de transformar a parceria em contrato fixo, com a criação de uma rede nacional de observadores antirracismo e uma política institucional de diversidade. O plano foi interrompido com a troca de comando na confederação.
Em 2025, a gestão Xaud manteve aporte reduzido. Para a edição de 2026, a resposta veio por e-mail: não haveria orçamento para patrocínios a projetos de terceiros. O mesmo argumento foi usado para negar apoio ao II Seminário Baiano de Combate à LGBTfobia e ao Festival LGBTricolor.
A versão da CBF e a réplica do coletivo
Procurada, a confederação afirmou estar criando “estruturas e processos” para avaliar demandas sociais e que todos os projetos seguem “em análise”. Alegou ainda que, após o último repasse, não recebeu projeto formal com escopo aceitável nem prestação de contas detalhada dos recursos anteriores.
O Coletivo Canarinhos nega ter deixado de atender exigências e classifica a justificativa como pretexto para um recuo deliberado. Para Onã Rudá, fundador do grupo, a medida compromete o combate à violência discriminatória e enfraquece ações de inclusão em um ambiente historicamente hostil.
- 2022: lançamento do 1º Anuário do Observatório da LGBTfobia
- 2023-2024: financiamento total da CBF sob gestão Ednaldo Rodrigues
- Maio/2025: posse de Samir Xaud
- Junho/2025: nota oficial prometendo parceria com o coletivo
- Final de 2025: comunicação de corte de verba para 2026
Observatório racial também sente o impacto
O Observatório da Discriminação Racial no Futebol, ativo há 12 anos, enfrentou destino semelhante. O acordo quadrienal com a CBF se encerrou em 2024 e não foi renovado pela nova diretoria. A entidade participa de ações pontuais, como o evento do Dia da Consciência Negra, mas o anuário de 2025 saiu sem qualquer aporte confederativo.
Diferente do caso LGBTQ+, a relação é descrita como cordial por ambas as partes. Ainda assim, a ausência de renovação contratual retira previsibilidade de um trabalho que compila episódios de racismo — inclusive envolvendo atletas brasileiros no exterior — e acompanha desdobramentos punitivos e institucionais.
Discurso x prática: o abismo de 30 dias
Em maio, logo após a eleição, Xaud declarou: “Fortaleceremos as ações de combate ao racismo e a qualquer forma de discriminação.” Um mês depois, no Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+, o site da CBF publicou frase do presidente: “A promoção da diversidade é uma pauta fundamental da nossa gestão. Já estamos em contato com o Coletivo de Torcidas Canarinhos LGBTQ+ para trabalhar juntos.”
O contato, segundo o coletivo, não evoluiu. A promessa de protagonismo a projetos de sustentabilidade e a retomada da Taça Indígena também seguem sem detalhamento público.
O que observar daqui para frente
A criação da tal “estrutura de avaliação” citada pela CBF será o termômetro. Se sair do papel com critérios transparentes e prazos definidos, pode sinalizar reorganização — não desmonte. Caso contrário, a lacuna deixada pelos observatórios independentes tende a aumentar a subnotificação de casos e reduzir a pressão por punições exemplares.
Para dirigentes de clubes, patrocinadores e gestores de estádios, a ausência de dados consolidados dificulta a elaboração de protocolos de segurança e acolhimento. O vácuo de monitoramento não afeta apenas torcedores organizados: reflete na percepção de risco de investidores e na reputação do produto futebol brasileiro no mercado global.
