A China acaba de colocar no mercado duas inteligências artificiais que executam tarefas complexas sem supervisão humana — e Pequim já sabe que o efeito colateral pode ser devastador para 12,7 milhões de recém-formados que entraram no mercado apenas em agosto.
Em 48 horas, a Meituan e a Tencent revelaram modelos que dispensam programadores júnior e analistas de suporte. O governo reagiu com uma orientação inédita: frear a automação onde houver muita mão de obra. Mas o documento deixa um buraco enorme.
Duas IAs, um mesmo alvo: o trabalhador de colarinho branco
Na segunda-feira (2), a Meituan — gigante de delivery e dona de um dos dois maiores apps de comida da China — lançou a versão final do LongCat-2.5. O modelo foi treinado para tocar sozinho tarefas longas de programação: escrever, testar, depurar e documentar código em ciclos completos.
Na quarta-feira (4), a Tencent, controladora do WeChat, apresentou o Hy4. É o primeiro modelo da empresa capaz de operar um computador como um humano: move o mouse, clica, digita, navega entre janelas e executa fluxos de trabalho inteiros sem intervenção.
Nenhum dos dois precisa de licença regulatória para ser implantado. Ambos miram cargos de entrada em tecnologia — exatamente o perfil que absorve a maior fatia dos formandos chineses todos os anos.
O número que assombra o Conselho de Estado
O desemprego entre jovens de 16 a 24 anos fora da escola atingiu 18,9% em agosto. São quase um em cada cinco. O recorde de 12,7 milhões de diplomas novos no mesmo mês transformou o mercado em uma panela de pressão.
Duas semanas antes dos lançamentos, o Conselho de Estado publicou uma orientação sobre IA e emprego. O texto pede “prudência no alcance, na intensidade e no ritmo” da tecnologia em setores intensivos em mão de obra. A expressão-chave: desenvolvimento “amigável ao emprego”, cunhada pelo economista Cai Fang em artigo no jornal da Escola Central do Partido.
O que a orientação exige — e o que ela ignora
- Avaliação de impacto no emprego obrigatória em projetos que dependem de licença (ex.: robotáxis, automação industrial pesada).
- Período de amortecimento e aviso prévio aos afetados quando a IA chegar em larga escala.
- Requalificação profissional para quem for demitido — os temidos “layoffs”.
Parece abrangente. Não é. A orientação não tem força de lei, não prevê punições e não cobre setores que dispensam licença — como desenvolvimento de software, análise de dados, suporte técnico e criação de conteúdo.
O caso Zhou: a exceção que prova a regra
Em janeiro de 2025, às vésperas do Ano Novo Lunar, um supervisor de 35 anos em Hangzhou — identificado apenas como Zhou — foi demitido após recusar corte salarial de 25 mil para 15 mil yuan mensais (queda de R$ 20,5 mil para R$ 12,3 mil). A alegação da empresa: a IA já fazia o trabalho dele.
Zhou tinha contrato e demissão por escrito. Ganhou na arbitragem e em duas instâncias judiciais. A indenização de 260 mil yuan (R$ 213 mil) foi mantida pelo tribunal de Hangzhou em abril.
Mas Zhou é exceção. A maioria dos juniores nem chega a ser contratada. A vaga simplesmente deixa de ser aberta. Essa destruição silenciosa de postos de entrada não aparece nas estatísticas de demissão — só engrossa a taxa de desemprego juvenil de forma difusa, impossível de rastrear caso a caso.
O buraco que Pequim não consegue tapar
A orientação de outubro foca em setores onde a troca de gente por máquina gera estatísticas visíveis: fábricas de roupa, montadoras, robotáxis. O caso dos táxis sem motorista da Baidu em Wuhan, em julho de 2024, foi o estopim: motoristas pressionaram, o tema explodiu nas redes e o governo viu o risco político.
Agora, a automação ataca o setor de serviços de alta qualificação — programadores, analistas, revisores de IA. São profissões que não exigem licença para operar, não têm sindicatos fortes e cujas vagas de entrada evaporam sem deixar rastro documental.
O que o Conselho de Estado oferece a esses jovens? Cursos de IA e novas profissões como “treinador de modelos”. Útil, mas insuficiente para absorver milhões de formandos por ano.
O que observar daqui para frente
Três sinais dirão se a orientação vira política real ou fica no papel:
- Legislação trabalhista atualizada para cobrir demissões por substituição algorítmica sem documento formal.
- Métricas de “vagas não criadas” — o governo passará a monitorar postos de entrada que deixam de ser ofertados?
- Expansão do escopo regulatório para além de projetos licenciados, alcançando SaaS, plataformas de código e ferramentas de automação de escritório.
Legisladores de outras economias grandes — EUA, UE, Brasil — enfrentam o mesmo vácuo. A China apenas chegou primeiro ao momento em que a IA substitui não o operário da linha de montagem, mas o analista júnior que escrevia o código que controlava o robô. Quem legislar primeiro sobre a destruição silenciosa de vagas de entrada dita as regras do jogo para a próxima década.
