Internacional

Lula nas Filipinas: o lance de US$ 38 bi que ninguém está vendo…

Lula cumprimenta líder filipino em Manila durante visita de Estado para Cúpula da ASEAN
Presidente Lula em Manila para cúpula da ASEAN onde Brasil busca status de parceiro estratégico máximo.

O presidente Lula desembarca em Manila dia 14 para uma visita de Estado e, no dia seguinte, ocupa a tribuna de abertura da Cúpula da ASEAN — privilégio reservado, via de regra, ao anfitrião. O Brasil não faz parte do bloco, mas acaba de pedir o status máximo de parceria. Se aprovado, entra no mesmo patamar de EUA, Japão e Coreia do Sul.

Por que um bloco de 11 nações do Sudeste Asiático abre as portas para um gigante sul-americano pela segunda vez consecutiva? A resposta está nos números que a diplomacia discreta vem construindo há duas décadas.

O salto que transformou o mapa comercial

Entre 2003 e 2025, o intercâmbio Brasil-ASEAN multiplicou por dez: saiu de US$ 3 bilhões para US$ 38 bilhões. Taxa média de 12% ao ano, ininterrupta. Hoje, o bloco responde por uma fatia crescente das exportações brasileiras de commodities agrícolas, proteínas e produtos industrializados de maior valor agregado.

Os onze membros — Indonésia, Malásia, Filipinas, Singapura, Tailândia, Vietnã, Timor-Leste, Mianmar, Brunei, Camboja e Laos — somam PIB conjunto superior a US$ 3,6 trilhões e 680 milhões de consumidores. Classe média em expansão, demanda por alimentos, energia e tecnologia.

O que muda com o status de Parceiro de Diálogo

Atualmente, o Brasil é apenas Parceiro de Diálogo Setorial — categoria de entrada, com acesso limitado a reuniões ministeriais e grupos de trabalho. A elevação pretendida garante:

  • Assento nas reuniões anuais de ministros das Relações Exteriores e da Economia
  • Participação plena em mecanismos de cooperação técnica, sanitária e de investimentos
  • Canal direto para negociar acordos setoriais sem depender de mediação de terceiros
  • Visibilidade política equiparada à de potências extra-regionais consolidadas

A embaixadora Susan Kleebank, secretária de Ásia e Pacífico do Itamaraty, resume: a proximidade já existe no comércio; o upgrade institucional apenas remove as barreiras que travam projetos de longo prazo.

Filipinas: o parceiro que cresceu quatro vezes em dez anos

A visita de Estado coincide com 80 anos de relações diplomáticas. Desde 2016, o bilateral quadruplicou. O Brasil vende café, açaí, sucos concentrados, massas e biscoitos — itens com margem superior às commodities brutas. Há espaço para ampliar: a classe média filipina ultrapassa 40 milhões de pessoas e consome cada vez mais produtos “premium” e saudáveis.

Seis países do bloco já solicitaram bilaterais com Lula durante a cúpula. As agendas ainda não estão confirmadas, mas a lista indica apetite por parcerias em bioenergia, defesa, infraestrutura e tecnologia agrícola.

Da COP31 para o Sudeste Asiático: a logística de um giro estratégico

Lula chega de Antália, na Turquia, onde participa da COP31. Voo de 14 horas na noite de 12 para 13 de novembro. Dia 14: cerimônias de Estado em Manila, acordos setoriais, homenagens aos 80 anos. Dia 15: discurso de abertura da ASEAN e coletiva de imprensa — data e horário a definir.

A maratona não é simbólica. O Brasil quer mostrar que consegue atuar simultaneamente no clima global e na expansão comercial com a região que mais cresce no mundo.

O que observar nos próximos 90 dias

A decisão sobre o pedido de elevação de status sai no primeiro semestre de 2027. Até lá, três sinais valem monitorar:

  • Anúncio de missões empresariais brasileiras a Jacarta, Hanói e Singapura ainda no primeiro trimestre
  • Movimento do Congresso filipino para ratificar acordos sanitários que liberem novos frigoríficos brasileiros
  • Posicionamento da Indonésia — maior economia do bloco — sobre a entrada do Brasil no clube dos Parceiros de Diálogo plenos

Se o upgrade vier, o Brasil deixa de ser “convidado frequente” para virar arquiteto de regras na região. Para exportadores, investidores e gestores de risco, a janela de antecipação está aberta agora.